terça-feira, 9 de março de 2021

Mulheres que cantam a Primavera.

 

Yim Ving Tsun e Si Sok Úrsula Lima: passado e presente unidas através do legado de um Sistema de Kung Fu.


"Nas duas faces de Eva

A Bela e a Fera

Um certo sorriso de quem nada quer

Sexo frágil não foge à luta."

(Rita Lee - Cor de Rosa choque).


Nas mais diversas áreas do saber humano, mulheres notáveis deram a sua contribuição para o progresso da Humanidade. Emprestaram sua sensibilidade e conhecimento, contribuindo com seu talento para a evolução das mais diversas Sociedades. 

Trago nesta postagem um pouco da História de duas grandes mulheres que marcaram para sempre seu nome no Sistema de Kung Fu que eu, e milhares de pessoas ao redor do mundo se dedicam à prática. A primeira delas inclusive, empresta o próprio nome ao Sistema: Ving Tsun.

O nome Yim Ving Tsun pode ser traduzido como: "cantar eternamente a primavera". É como se chamava a fundadora do Sistema, uma jovem que em determinado momento de sua vida estava sendo forçada a casar-se um com vilão que aterrorizava o lugarejo onde morava. Parecia que o destino desta jovem seria cruelmente traçado, vitimando-a a um casamento infeliz, imposto por uma usurpação forçada pelo machismo. 

Acontece que a jovem conheceu Ng Mui, uma Monja que havia escapado do incêndio do Monastério que habitava. Dela recebeu o conhecimento, que mais tarde, veio a organizar em um Sistema. De posse deste conhecimento, desafiou o vilão para uma luta, e se ele vencesse, ela se casaria com ele. 

Yim Ving Tsun de fato venceu porque não se casou com ele, e quanto à luta, ela pode nem ter acontecido, afinal desafiar publicamente o vilão para uma luta com aquele objetivo aponta para pelo menos dois cenários: o primeiro é que ele foi envergonhado publicamente, afinal, só conseguiria casar-se com ela se lutasse. O segundo é que se perdesse, seria derrotado por uma mulher, vergonhoso para uma sociedade machista como a chinesa por volta de 1700. 

Depois destes episódios, Yim Ving Tsun se casaria com Leung Bok To, transmitindo a ele seu conhecimento. Em sua homenagem batizou o Sistema de Kung Fu transmitido a ele por sua mulher, de Ving Tusn. 



Ving Tsun gravado em madeira: Presente que recebi de minha Si Sok, Mestre Senior Úrsula Lima no ano de 2003.



Mestre Úrsula Lima é irmã Kung Fu de meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, o que faz dela minha Si Sok (tia Kung Fu). Ela tem uma longa história de colaboração com a Família Kung Fu de meu Mestre, tendo sido Coordenadora Geral do Núcleo Barra da Tijuca por mais de 10 anos.

Em julho de 2010, foi reconhecida Mestre Qualificado pela Moy Yat Ving Tsun Martial Inteligence, com os auspícios da International MYVT Federation, sendo a primeira mulher do Clã Moy Yat Sang a receber tal honraria.

A minha Si Sok é uma referência dentro do Sistema Ving Tsun, por sua alta qualificação técnica, sua liderança e determinação. Comemorou em julho do ano passado 10 Anos de Inauguração de sua Família Kung Fu, desenvolvendo seu trabalho no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, bem como iniciou uma carreira internacional tendo transmitido também em Portugal. 

Alguns séculos separam as histórias de Yim Ving Tsun e Mestre Senior Úrsula Lima, porém através do legado de uma tradição de Mestres, com a transmissão pura e legítima do Sistema, elas se encontram em essência, e por ter bebido da mesma fonte de conhecimento, hoje é possível que se possa receber a transmissão diretamente através de uma mulher, Mestre da mesma arte, e pertencente à linhagem direta da fundadora. 

 


Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho e Si Sok, Mestre Senior Úrsula Lima. Primos de sangue, e décadas como irmãos Kung Fu.


O Ving Tsun é um Sistema de Kung Fu essencialmente feminino, negando a usurpação através da força, apoiando-se no que é oferecido pelo oponente para alcançar a vitória. É antes de tudo uma atitude inteligente que observa o cenário e se apoia nele.

 E através de grandes mestres, de todas as épocas, de Yim Ving Tsun à Úrsula Lima, é que se confirma por séculos, ser a personificação da essência feminina, o que move esta bela arte.  



Mestre Senior Úrsula Lima: Família Moy Lin Mah e convidados, com a presença do Mestre Senior Ricardo Queiroz.









 

   

quinta-feira, 4 de março de 2021

Contar a própria História.

Prática do Baat Jaam Do com meu irmão Kung Fu, Rodrigo Moreira.



"Cada um de nós compõe a sua história,

Cada ser em si

Carrega o dom de ser capaz

E ser feliz".

(Tocando em frente: Almir Sater e Renato Teixeira).




Uma das maiores belezas que existem no Kung Fu na minha opinião, reside no fato de que algo é entregue à você, que foi desenvolvido por pessoas de outra época, de outra Cultura,  um saber Ancestral, de várias gerações de Mestres e este saber não lhe é entregue pronto. E nem deve ser assim.
A experiência que meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho nos proporciona, mobilizando minha busca por uma leitura  pessoal para a sequência do Baat Jaam Do, levando a debruçar-me sobre o estudo de cada movimento, me faz lembrar  de um belo diálogo entre um lendário professor de Matemática brasileiro, Augusto Cesar Morgado e um ex-aluno seu, do Curso de Engenharia da UFRJ. 
Conta o ex-aluno que quando já fazia seu Mestrado na UFRJ, no Curso de Análise Real foi adotado o livro do Rudin. Como era muito aplicado, tinha o hábito de resolver todos os exercícios, mas no capítulo 3, havia um que não conseguia fazer. O que ele fez? Perguntou ao Morgado. Após ler o enunciado por cerca de 30 segundos, deu-se o diálogo:
Morgado: Você conhece o teorema de Pringsheim?
Aluno: Nunca ouvi falar.
Morgado: Então vá estudar o teorema de Pringsheim. 
Assim também é no estudo do Kung Fu. Cada um de nós, Discípulos de meu Si Fu precisamos encontrar nossas respostas, ele aponta o caminho, e cada um buscará desenvolver seu Kung Fu e deixá-lo do tamanho que esta busca proporcionará.





Si Fu orienta seus Discípulos Leonardo Reis e Pedro Corrêa (ao fundo na foto).




Quando pratico a Sequência do Nível Superior Final, tenho um roteiro a seguir, mas forma de contar a História, o colorido que darei ao roteiro que recebi, é responsabilidade minha. E esta forma de transmissão é uma grande demonstração de respeito e confiança que meu Mestre deposita na relação que desenvolve comigo, seu Discípulo.
Chegará o momento em que meu Si Fu apresentará para mim, a sua expressão pessoal, de como ele mesmo realiza a sequência, resultado de sua busca, de seu estudo. Mas até lá a mim cabe continuar procurando respostas às minhas perguntas, personalizar a minha forma de executar através da minha compreensão sobre a sequência. Este é um caminho de muito trabalho, afinal é um caminho de Mestria. 
Meu Si Fu disse que a transmissão tradicional é assim realizada por que, do contrário, é como se meu jovem Kung Fu fosse esmagado pelo conhecimento de uma tradição de várias gerações de Mestres, afinal, se eu assistisse a sequência de meu Si Fu antes de ter a minha própria amadurecida, não teria como defender minha própria história, por sua jovial fragilidade, ao ver o tamanho do conhecimento que se colocaria diante dos meus olhos.  
Como na História que contei sobre o Professor Morgado que indicou ao seu ex-aluno qual teorema apontaria para a resposta de sua questão, meu Si Fu me aponta os caminhos para que eu construa a minha História e seja capaz de defendê-la como o resultado do desenvolvimento do meu próprio Kung Fu. 
E assim, aquilo que digo através de uma Sequência com duas facas nas mãos, será a síntese daquilo que sou como praticante de Kung Fu.  Meu Si Fu aponta o caminho, mas a estrada é caminhada por mim.
Serei eu a contar a minha História.  





Si Fu orienta sobre a anatomia do Ving Tsun Do.




domingo, 28 de fevereiro de 2021

Aproximar e afastar.

Si Fu fala aos presentes durante Colóquio.


 Na noite de quinta feira passada, meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho coordenou mais um Encontro on-line com a Família Moy Jo Lei Ou. Desta vez foi realizado um Colóquio, e seguindo o formato, a liberdade dos temas propostos gerou perguntas sobre diversos temas, os quais Si Fu comentou um a um.

Esta postagem se refere a um deles: sobre um dos aprendizados que retiramos da prática com o boneco de madeira, o Muk Yan Jong (樁)sobre aproximar e afastar. 

O boneco de madeira não se desloca,  e embora exista um certo "jogo" que auxilie o aprendizado, ele não anda, e por não sair do lugar, obriga ao praticante executar certos movimentos em função do boneco, ou seja, só é executado por causa dele.

Trazendo essa necessidade também para as relações humanas, podemos pensar o quanto muitas vezes precisamos compensar com a nossa ação, por causa da incapacidade do outro. A prática com o boneco de madeira, quando nos aproximamos, afastamos, angulamos, nos mostra o quanto a excelência é alcançada nos mais diversos cenários, exatamente quando consideramos o outro, em seus limites e potenciais.

É uma experiência reveladora, mostra muito sobre o quanto se aprende ao se respeitar e dividir uma experiência com quem "sabe menos". O praticante que não respeita o boneco, um ser inanimado, um tronco de madeira suspenso, se torna o "bobo da história" não conseguindo extrair proveito do grande potencial deste estudo. 

A relação com o boneco é um bom laboratório para refinarmos as nossas relações por toda a vida. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Um Golpe, uma Morte.




Sessão de terça à noite. Si Fu orienta seus Discípulos do Nível Superior Final.





Quantas oportunidades são perdidas na vida, pela falta de compromisso com a excelência na execução daquilo que fazemos? Quantas vezes precisamos repetir movimentos por falta de monitoramento, de uma atenção cuidadosa? 
Eu resolvi fazer um teste comigo, para conseguir ser capaz de responder a estas perguntas. Passei a guardar meus objetos sempre em um mesmo lugar: a chave do carro, um livro, etc. Embora seja uma atitude extremamente simples, notei a diferença que dá para quando eu não fazia isso, e como esta era uma entre as várias formas de externar a minha falta de compromisso com a qualidade e precisão nas minhas ações.




Eu portando o Ving Tsun Do. Foto: Núcleo Ipanema.  


O sucesso ou o fracasso são gerados por nossas atitudes diante de tudo, e se não sou preciso nos gestos mais simples, sofrerei consequências maiores sem dúvida, quando o meu posicionamento for testado em circunstâncias mais complexas. 
Não é necessário ser mais inteligente ou mais habilidoso do que a maioria dos seres humanos para ser alguém bem sucedido na vida, mas existe um ponto que é essencial: o de como eu me posiciono diante daquilo que preciso executar. 
O Kung Fu fala de dedicação em busca da excelência, afinal ser um homem de Kung Fu não é ser um homem comum. E quando digo não ser comum, não me refiro aqui a alguém que seja superior a quem quer que seja, mas sobre alguém que através de seu posicionamento diante da vida, consegue dar uma diferença, um ponto positivo capaz de ser notado por todos à sua volta.
Mas onde encontramos esta precisão a ponto de que este diferencial seja uma expressão pura, uma síntese de nós mesmos?




Si Fu em uma transmissão do Nível Superior Final com seu Discípulo Rodrigo Moreira, observado por seus Discípulos, André Almeida, Roberto Viana e Leonardo Reis (da esquerda para a direita). 


O Nível Baat Jaam Do, deixa claro ao praticante qual a consequência de se ter falta de precisão na execução de seus movimentos. O cenário, é você apontando duas facas para alguém que aponta uma outra arma (pode ser igualmente duas facas) na sua direção. Neste cenário de Combate simbólico, fica evidente a alusão de que você só precisa de um golpe, para matar ou morrer. 
Ao posicionar-se diante da vida tendo como referência um cenário assim, eleva-se o grau de atenção e compromisso com a execução daquilo que se faz, percebe-se com mais clareza as circunstâncias que se apresentam, sem julgá-las como positivas ou negativas, são apenas oportunidades de aprendizado.
Não há tempo para reclamar ou "culpar a vida", o tempo vai passando, tudo vai acontecendo e você deve ser ativo no processo se aproveitando dele, e não reativo por conta daquilo que acontece, como se fosse uma vítima daquilo que o circunda.
Percebe-se melhor a morte como a sequência de algo que tem início meio e fim, e não apenas um processo biológico onde as funções vitais falecem. Porém é exatamente quando esta finitude que a vida tem, é apresentada através de uma prática como esta do Nível Superior Final do Sistema Ving Tsun, se mostrando tão perceptível, aflora-se a importância que há na execução precisa daquilo que se faz na vida. Apresenta ao praticante tudo aquilo que morre por sua falta de compromisso e precisão, seja na defesa de seus valores, seja na defesa de seus sonhos. 
Um único golpe preciso pode fechar um processo e matar algo que nos incomoda, assim como a falta dele pode nos perpetuar acorrentados naquilo que nos faz mal, por não termos a coragem de matar isso em nós. 
Um golpe mal executado pode ser um aprendizado para refinarmos nossa precisão para a próxima, como também pode gerar uma perda de oportunidade que jamais se repita. São cenários extremos que exigem atenção e objetividade.
Meu Si Fu nos transmite tudo isso. Com duas facas nas mãos.  



    
Si Fu transmite sessão do Nível Superior Final, com seu Discípulo Guilherme de Farias, observado pelos Discípulos, Leonardo Reis, Pedro Corrêa e Cláudio Teixeira (ao fundo, da esquerda para a direita). 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Irmãos Kung Fu.

 Meu Si Fu e Si Sok Úrsula Lima: Primos na Família de sangue, irmãos na Família Kung Fu.




A História da Família Kung Fu de meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, tem com certeza muitos capítulos escritos com a participação especial de sua irmã Kung Fu mais nova, a Si Sok Úrsula Lima. 
O pioneirismo de meu Si Fu desenvolvendo o trabalho da Moy Yat Ving Tsun Marcial Inteligence no Rio de Janeiro, representando seu Si Fu, Grão Mestre Leo Imamura, teve como personagem de grande relevância em apoio ao seu trabalho, a minha Si Sok. 
Eu e muitos de meus irmãos Kung Fu tivemos o privilégio de tê-la bem próxima à nós, tutorando nossas sessões personalizadas, orientando questões administrativas, competências que ela desenvolveu e que certamente lhe foram muito úteis quando da Formação da sua própria Família Kung Fu.




Si Sok Úrsula Lima recebe de Grão Mestre Leo Imamura seu Jiu Paai.




Ao se tornar a primeira mulher Mestre titulada pela Moy Yat Ving Tsun Martial Inteligence, Si Sok Úrsula Lima escreveu definitivamente o seu nome com destaque na galeria de Mestres formados por Grão Mestre Leo Imamura. A sua ligação à Família Kung Fu de meu Si Fu, faz dela também uma figura de importância destacada na história do Clã Moy Jo Lei Ou.
 




Si Sok Úrsula e eu durante sua visita ao Núcleo Barra da Tijuca do Clã Moy Jo Lei Ou.




 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Canalizar a Marcialidade.


Si Fu orienta seus Discípulos na prática de hoje. 



"Eu gosto do impossível, porque lá a concorrência é menor."

Walt Disney.


 Uma das experiências mais ricas da minha vida foi ter tido a oportunidade de aprender com meu Si Fu sobre a boa agressividade. Não se trata de agredir o outro, pelo contrário, esta é a face ruim. Quando você canaliza sua agressividade, sua energia para algo positivo, aí há marcialidade.

Alguém que seja bem sucedido, seja no trabalho, relação familiar ou em qualquer outra área de sua vida, é uma pessoa que soube usar sua agressividade para algo positivo, apontando para bons objetivos, alcançando a marcialidade. E quando canalizamos esta marcialidade em um único ponto, aí temos Ving Tsun.

Um homem de Kung Fu não é apenas um exímio reprodutor de movimentos, mas alguém que faz tudo com excelência, seja o mover de uma xícara de chá até a boca, seja a construção  um prédio. 

É sobre estar atento às oportunidades e pronto para quando elas surgirem, é sobre dar o seu melhor a cada coisa que faça na vida. 

É sobre defender seus valores, buscar a excelência e atuar com refinamento e precisão. Canalizar a marcialidade, é um encontro com o que há de melhor dentro de si mesmo.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Não seja dummy.

Si Fu orientando a prática de hoje.


 Meu Si Taai Gung, o Patriarca Moy Yat, dizia que quando praticamos com o boneco de madeira, o Muk Yan Jong (樁) um dos dois, o praticante ou o boneco será o dummy (idiota). Afinal, ou você controla o boneco com o refinamento do seu Kung Fu, ou você "apanha" dele o tempo todo. 

Durante nossa prática de hoje, meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, nos disse que no Nível Superior Final, Baat Jaam Do ( 刀)ambos os praticantes correm o risco de fazerem este papel.

Isto porque o grau de atenção e respeito ao ponto de encontro com o movimento do oponente deve levar  em consideração que agora o que está em jogo é o encontro de duas armas. A premência de morte, um dos princípios trabalhados durante todo o Sistema Ving Tsun, encontra neste Nível, sua expressão mais direta, mais visível, uma vez que a arma é um instrumento de morte. 

Eu vejo o Baat Jaam Do como uma possibilidade de enfrentar muitas das minhas limitações em um cenário que me obriga ser atento e preciso, é uma experiência muito rica e transformadora.

Orientado por meu Si Fu, praticando e aperfeiçoando cada movimento, estou certo de que conseguirei a cada dia, gerar mais e mais benefício para mim, e sendo um homem de Kung Fu, afastarei a possibilidade de ser um "dummy" não apenas na prática do Ving Tsun, mas em qualquer área na minha vida.