domingo, 7 de maio de 2017

Moy Jo Lei Ou: "Aquele que guarda o segredo ancestral".


Mestre Sênior Júlio Camacho (Moy Jo Lei Ou). Foto 2014.


O nome Kung-Fu traz consigo características relevantes sobre como é, e acima de tudo sobre quem é o futuro Discípulo, na visão de seu Si Fu. O Mestre Sênior Júlio Camacho teve a honra de receber seu nome Kung-Fu, em maio de 1996 diretamente de seu Si Gung, Patriarca Moy Yat (1938-2001) e Si Taai Po Helen Moy, atual líder do Grande Clã Moy Yat, o nome Moy Jo Lei Ou, que possui entre seus possíveis significados: "aquele que guarda o segredo ancestral".



Si Fu em um passeio matinal com Sitai Gung nos arredores de sua residência. Foto 1999. 


O Ving Tsun vem sendo transmitido por gerações, das quais Mestre Sênior Júlio Camacho é Membro da décima primeira geração, pertencente à linhagem direta da fundadora Yim Ving Tsun, gerações  que há mais de trezentos anos transmitem este estilo de Kung-Fu da forma tradicional.



Yim Ving Tsun.


A importância de seu nome Kung-Fu ganha novo relevo particularmente neste momento histórico. Na virada para o século XXI, Patriarca Moy Yat demonstrava preocupação quanto à preservação do Ving Tsun e sua transmissão pura e completa, crendo na dificuldade de sua sobrevivência no novo milênio. Era necessário que se fizesse um trabalho que pudesse apresentar o Ving Tsun para o Ocidente de forma que se aproximasse à sua Cultura e estilo de vida, sem perder a essência do Ving Tsun, e fosse essa a ponte para despertar o interesse posterior pela prática tradicional.



Com este objetivo, Patriarca Moy Yat cria nos Estados Unidos a forma Siu Nim Do (pequena ideia do Caminho) e a partir deste trabalho, seu Discípulo Grão Mestre Leo Imamura cria uma listagem técnica, o Ving Tsun Experience contemplando a estas aspirações de Patriarca Moy Yat.



Sitai Gung e Si Gung. Foto Oficial Si Fu To Dai.


Com as ferramentas prontas, para operacionalizar a preservação do Sistema Ving Tsun, faz se necessário que alguém, com profundo conhecimento desta arte, "aquele que guarda o segredo ancestral" dê continuidade a este trabalho onde ele possa representar uma janela para o Mundo e assim garantir a preservação do Ving Tsun e sua transmissão pura e legítima para as futuras gerações. Grão Mestre Leo Imamura convocou Mestre Sênior Júlio Camacho para esta grande missão e levar este trabalho de volta para onde ele nasceu: os Estados Unidos da América.



Seminário de Ving Tsun Experience.  Foto 2011.


Mestre Sênior Júlio Camacho dedicou sua vida ao Ving Tsun.  Tornou-se Mestre Qualificado pela Moy Yat  Ving Tsun International Federation aos 33 anos, em 15 Março de 2003. Fundou no mesmo ano sua Família Kung-Fu (Família Moy Jo Lei Ou). No ano de 2006 aceitou seu primeiro Discípulo Leonardo Reis. No ano de 2014 é titulado Mestre Sênior. Já no ano de 2015 titulou dois de seus Discípulos, Leonardo Reis e Thiago Pereira como primeiros Mestres Qualificados de décima segunda geração da América Latina.



Si Fu fala aos presentes durante a titulação de Leonardo Reis (de pé segurando Jiu Paai) e Thiago Pereira (sentado). Foto 2015.



É Líder do Clã Moy Jo Lei Ou com 29 Discípulos, com Núcleos em atividade no Estado do Rio de Janeiro nos bairros da Barra da Tijuca e Méier. Acompanhou por diversas vezes seu Si Fu, em viagens internacionais, das quais sempre buscou informações e acúmulo de conhecimento com vistas ao desenvolvimento do nosso Kung-Fu.



Da esquerda para a direita: Si Gung, Si Taai Po e Si Fu durante visita à Nova Iorque. Ano 2009.


Como guardião do segredo ancestral, sempre zelou pela legitimidade da transmissão; como homem contemporâneo olha para o seu tempo e analisa o cenário para manter preservada a arte que lhe foi confiada. Olha o futuro e cria em sua Família o Conselho de Membros Vitalícios, uma verdadeira Escola para Líderes, onde monitora pessoalmente o desenvolvimento de cada membro e das atividades e propostas, até que estejamos prontos para assumirmos integralmente, sozinhos, aquilo o que nosso Mestre nos confiou que é a preservação do legado que ele sempre defendeu.


Por todos estes anos que sigo meu Si Fu, por todo o aprendizado que já adquiri e por tudo o que ainda há de vir, tenho segurança para afirmar: Mestre Sênior Júlio Camacho poderia ser considerado apenas mais um entre os vários Mestres de Artes Marciais espalhados pelo Mundo afora, não fosse por um pequeno detalhe: ele é brilhante!















segunda-feira, 1 de maio de 2017

Kung-Fu e a força de um sonho.





"Os sonhos que eu tenho coloquei neste chão que você está pisando, portanto, sempre que pisar neste chão, pise com cuidado. Você está pisando nos meus sonhos".
                                          
                                         Mestre Sênior Júlio Camacho ( Líder do Clã Moy Jo Lei Ou).

                      (Trecho do discurso de inauguração do primeiro Núcleo em Jacarepaguá 1995).




Esta postagem, é um breve relato sobre parte da obra que nasceu de um sonho. De alguém que ousou acreditar e inspirar, ou em uma frase que ele usou para homenagear Grão Mestre Leo Imamura por ocasião de seu Aniversário, "o senhor não faz ideia o quanto afeta a vida das pessoas". Sim, o sonho do meu Si Fu fortalece nosso Clã, amplia nossos horizontes, inspira o crescimento do nosso Kung-Fu. O sonho do Mestre Sênior Júlio Camacho, e o que ele representa para mim, é o personagem principal deste Blog.



O sonho é uma vontade permanente, viva, constante, que não se apaga, seja  na menor ou maior dificuldade. Ele integra não apenas a História pessoal de quem sonha, mas da Humanidade quando é capaz de afetar a vida das pessoas para movê-las em uma direção, não idêntica mas comum às suas aspirações. Não raras vezes, o sonho foi a força motriz geradora do desenvolvimento da justiça e da fraternidade humana.


Um exemplo mundialmente conhecido foi a Marcha de Washington por Empregos e Liberdade, um marco na luta por direitos civis dos negros nos Estados Unidos, quando o Reverendo Martin Luther King proferiu a 28 de agosto de 1963 nos degraus do Lincoln Memorial o famoso discurso "I have a dream". O sonho que ecoou na capital da América ainda vive nos corações daqueles que por todo o mundo lutam pela igualdade entre os homens.





Foto Histórica: Si Fu em frente ao outdoor do Núcleo Jacarepaguá. Ano 2002.




Geralmente, os sonhos são feitos de difícil realização. Existem obstáculos que precisam ser superados e não raro, muitas pessoas desistem pelo caminho. Muitos sonhos são construídos em bases frágeis, e ao não serem concretizados, fica a falsa impressão da impossibilidade de  que um dia eles pudessem se tornar reais, como se os sonhos fossem construídos em nuvens o que sobrasse ao fim de tudo fosse apenas o chão duro da realidade.




Si Fu durante a abertura do San Toi. Núcleo Barra. Ano 2016.





Em seu discurso por ocasião da inauguração do primeiro Núcleo da Moy Yat Ving Tsun Martial Inteligence em Jacarepaguá no ano de 1995, Mestre Sênior Júlio Camacho esclareceu aos presentes a importância do que havia ali, não se circunscrevia apenas ao local físico, mas deixou clara a sua relação com o que aquele local representava, da importância que há em respeitar um sonho realizado, e porque não, o de também ser inspirado por ele.





Si Fu fala aos presentes durante a Primeira Cerimônia Tradicional da Família Moy Jo Lei Ou. Ano 2003.



A importância da capacidade em avaliar cenários, apoiar-se no potencial que cada situação oferece, desenvolver uma atenção cuidadosa, são algumas das ferramentas para que alguém consiga realizar seus sonhos. Não é uma busca fora de si mesmo, mas um reencontro consigo, com aquilo que se pode realizar através das competências que se tem ou que se venha a adquirir com o desenvolvimento de seu Kung-Fu. Como na frase de Mário Quintana: "sonhar é acordar-se para dentro".



Inauguração do Núcleo Méier. Foto 2012.





O Kung-Fu é uma habilidade incorporada à personalidade da pessoa, desenvolvida através de um Sistema que leva o praticante à experimentar estímulos em cenários que propiciam o seu desenvolvimento, sendo a Vida Kung-Fu o meio adequado a todo este acesso, em constante movimento, formando novas lideranças.



Inauguração do Jiu Pai da Família Moy Fat Lei. Foto 2016.




Se o sonho é o ponto de chegada de uma estrada chamada esperança, um Sistema de Kung-Fu é como o combustível introduzido no tanque de um carro que nos conduzirá por esta mesma estrada. Este carro que caminha através dos anos é a Vida, quem está no volante somos nós. Chegar ao fim da estrada esperança com o sonho realizado ou não, dependerá do quanto de Kung-Fu nossa vida foi abastecida.




domingo, 9 de abril de 2017

Defesa Pessoal: uma avaliação de cenários.

O Ving Tsun Kung-Fu se notabilizou como um eficiente sistema de combate corporal, como de fato é, porém o desenvolvimento do praticante particularmente neste aspecto, está mais ligado à capacidade de avaliar cenários do que propriamente a reprodução de uma listagem técnica bem aplicada. O combate não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para que se desenvolva um posicionamento estratégico frente à circunstâncias, por vezes inéditas.



Si Fu executando o Ding Gerk. Foto 2002.




Quando se fala em defesa pessoal, habita no imaginário popular a ilusão de que haverá uma arte marcial que, sendo praticada até alto grau fornecerá técnicas de combate corporal infalíveis. Esse pensamento não é apenas ilusório como perigoso. A técnica, seja a marcial ou não, é algo operacional, encontra limites dentro da natureza dos próprios movimentos e conceitos, pois restringem-se ao plano pré-estabelecido, planejado para a sua aplicação, ou seja, naturalmente limitado.



Prática de Combate. Núcleo Barra da Tijuca. Ano 2005.



Existe uma lenda sobre uma preleção da Seleção Brasileira de Futebol durante a Copa de 1958 na Suécia, a qual o técnico Vicente Feola reuniu os jogadores e combinou a estratégia da partida que seria realizada contra a extinta União Soviética.

Depois de descrever toda a jogada, que finalizaria em gol feito pelo jogador Mazzola na direção da marca do pênalti, Garrincha que ouvia a preleção com a camisa jogada no ombro, perguntou ao técnico: Tá legal, seu Feola... mas o senhor já combinou isso com os russos?

O praticante de Ving Tsun desenvolve seu Kung-Fu dentro de uma experiência de cenários apresentados em premência de morte com a prática do combate simbólico. A vivência promovida com a variação de cenários leva à internalização da experiência, integrando um desenvolvimento perceptivo à sua personalidade. Não há plano traçado para uma execução eficaz; o que há é uma leitura do que está ocorrendo, e durante o processo a decisão se apoiará nesta leitura dos fatos. Não
 há uma posição estabelecida de antemão para atuar, e sim uma antecipação através de uma atenção para aquilo que ocorre à volta de onde se está inserido, e com esta antecipação se perceberá quais são as chances e os fatores favoráveis para se desvencilhar de uma situação de risco. A crença prévia de que a capacidade de  lutar é a viga mestra da defesa pessoal não é uma atitude inteligente. Se alguém tentasse, usando o próprio corpo, agredir fisicamente ao ar livre, o campeão olímpico dos 100 metros rasos, Usain Bolt e ele simplesmente saísse correndo? Há dúvida sobre ser esta uma atitude de defesa pessoal eficiente?



Prática Coletiva durante a visita do Si Gung. Foto 2008.



O Sistema Ving Tsun, através de seus seis Domínios trabalha com diferentes ordens internas, diferentes lógicas, que em conjunto formam uma combinação que geram no praticante a capacidade de compreensão sobre como se pode reagir em diferentes circunstâncias.






domingo, 2 de abril de 2017

Aderir: A excelência estratégica na arte de ouvir.



Si Fu ministrando palestra na USP. Foto 2017. 


Em um de nossos encontros, meu Si Fu, falou sobre uma particularidade de sua relação com seu próprio Si Fu, o Grão Mestre Leo Imamura: " Quando ele propõe algo, eu adiro e procuro a forma de viabilizar para fazer acontecer".
Esta frase chamou muito minha atenção pelo fato de que muitas vezes, deixamos de realizar muita coisa em nossa vida, simplesmente porque as vezes nem pararmos para pensar como poderíamos "fazer acontecer".

Si Fu e Si Gung: momento de Vida Kung-Fu. Foto 2016.


Diante das dificuldades, muitos recuam sem ao menos cogitar a hipótese de estrategicamente planejar a sua ação para efetivamente concretizar aquilo que até então se imaginava impossível realizar. Há uma famosa frase atribuída a Jean Cocteau : "por não saber que era impossível, ele foi lá fez", sendo que  há também quem a atribua à  Mark Twain: "They did not know it was impossible, so they did it!". Seja qual for seu autor esta frase traduz bem a ideia de posicionamento diante dos desafios.

Nesta foto de 1998, Si Fu praticando Muk Yan Jong no Ving Tsun Museum, Dayton, Ohio, USA.


Lógico que nem tudo podemos fazer. Seria ingênuo acreditar que todo o nosso desenvolvimento seria o suficiente para nos tornar capazes de realizar toda e qualquer coisa, cada um de nós tem seus potenciais como também os seus limites, ambos devem ser respeitados, porém, sabotar a ação antes de esgotar as possibilidades de realização daquilo que se deseja, é firmar um pacto com a mediocridade.

Saber ouvir, aderir a uma proposta, não significa ser passivo, aceitar tudo sem questionar ou sem avaliar prós e contras. É antes de tudo, estar com a mente e o coração abertos para perceber quais são os potenciais que determinada proposta carrega consigo, quais são os pontos falhos que podem ser melhorados, qual a possibilidade de realizar, quais os valores que uma ideia pode gerar.


Si Fu ministrando palestra na Universidade Estácio de Sá /RJ. Foto 2003.




Muitas vezes, a adesão torna-se mais difícil quando a proposta é diametralmente oposta à nossa.  Quando se está envolvido na paixão pela própria ideia, entra-se em um estado que no Kung-Fu chamamos Yip Sam (folha que encobre o coração), não nos permitindo ver nada além daquilo que queremos e nem de ouvirmos para percebermos qual o potencial vivo que existe na ideia que não é nossa, enquanto não aderirmos à ela. Com a adesão, as ideias se comungam, se alimentam, se tornam uma nova ideia, que passa a ser de todos. Vencer a paixão por uma ideia fixa, não é abandonar a própria ideia, mas sim aderir as possibilidades que podem torná-la melhor, somando e gerando uma ideia nova, comum a todos. Esta é uma atitude estrategicamente eficiente.

Si Fu em seu 47º Aniversário. Foto 2016.


  Trazendo esta proposta para dentro de um cenário de combate simbólico, será através da adesão, "ouvindo" a ação do outro,  fazendo usos sucessivos das posições percebidas (posicionamento), do processo contínuo do aproveitamento dos recursos (energia), respeitando as etapas do processo, intervindo o mínimo possível para se ter êxito (timing) e identificando as condições favoráveis para que o vínculo propicie a mobilização do outro (distância), teremos um monitoramento do processo conduzido com excelência, potencializando a probabilidade de êxito.



Abertura do San Toi. Foto 2017.




O Ving Tsun Kung-Fu desenvolve em seus praticantes a habilidade de ouvir com o coração, para que as ações sejam monitoradas e direcionadas para um desenvolvimento pessoal  que se apoia na relação com o outro, ou seja , na Vida Kung-Fu.




segunda-feira, 27 de março de 2017

Kung-Fu e questões do Mundo Moderno.



A minha atual compreensão sobre o Sistema Ving Tsun Kung-Fu ( tudo está em evolução, inclusive nosso conhecimento) me permite dizer que este Sistema de variação de cenários, leva o seu praticante a desenvolver um olhar cuidadoso, capaz de apresentar respostas com mais qualidade e menor esforço.

Ao lado dos Líderes do Grande Clã Moy Yat Sang, Si Fu é titulado Mestre Senior. Foto 2014.



Apresentado dentro de um cenário de Combate Simbólico, o pensamento estratégico desenvolve-se com movimentos legítimos; estes são exatamente aqueles estrategicamente executados, ficando de fora a visão inocente de que existam" movimentos que funcionam" ou até mesmo os que sejam" infalíveis". Afinal, aquilo que funcionaria com uma pessoa em um cenário, pode perfeitamente não funcionar com outra no mesmo cenário, ou até com àquela, em um cenário diferente.

O gerenciamento das emoções faz parte deste processo de desenvolvimento dentro do Sistema Ving Tsun. Importante salientar que não se trata de controle das emoções, pois seria paradoxal falar em controlar aquilo se sente, mas gerenciar todo o processo mental de reações emocionais, não é apenas possível, como fundamental para que nossas ações sejam revestidas de excelência estratégica.

Si Fu em visita à China. Ano 2009.



Compreendendo o termo Sistema como um conjunto de princípios donde se deduzem conclusões coordenadas entre si, entrelaçadas numa concatenação lógica, formando um todo harmônico, digo que o Sistema Ving Tsun leva ao praticante experimentar variações de cenários apoiando suas ações no conhecimento acumulado através dos estímulos recebidos e sensorialmente percebidos.

Roberto Viana durante a prática livre. Barra da Tijuca 2005.



Estes estímulos recebidos e também fornecidos em parceria com outro praticante, possuem o potencial de elevar a percepção atenciosa sobre outro, o que cria um cenário favorável à leitura de nossas próprias reações psicomotoras, que são as referentes aos efeitos motores dos processos mentais.


Fábio e Erica executam o Chi Sau. Foto 2011.



O Sistema Ving Tsun, fornece através de sua prática, ferramentas capazes de potencializar nossa sensibilidade e percepção daquilo que está à nossa volta, por estimular a leitura sobre o cenário no qual estamos inseridos e também sobre nós mesmos, nossa expressão pessoal, nossa capacidade em responder da melhor forma possível às situações que nos são apresentadas, o que é muito interessante para o mundo moderno, onde tudo acontece de forma cada vez mais rápida, exigindo de cada um de nós a capacidade de adaptação por vezes até imediata, enfim por se tratar da própria  vida, de um cenário em constante variação.


Si Fu visita Núcleo Méier. Foto 2011.


O Ving Tsun, um sistema de Kung-Fu eficiente de combate corporal, possui ferramentas que estimulam o seu praticante a encontrar respostas para além daquilo que se popularizou chamar de Lutas ou Artes Marciais, que o torna uma prática acessível à todas as pessoas.

Comemoração do Ano Novo Chinês. Foto 2017.

domingo, 12 de março de 2017

Avaliação de cenário como posicionamento estratégico.

Na terça-feira da semana passada, fui participar do café da manhã com meu Si Fu em uma padaria dentro do Condomínio onde ele mora. Cheguei ao local com cinco minutos de atraso, o que é muito ruim, afinal a presença do Si Fu deve ser aproveitada ao máximo, para que se possa ouví-lo por todo o tempo que ele disponibilizou, e aprender com isso.

Café da manhã com Si Fu. Na foto três discípulos: Carlos Antunes está ao lado do Si Fu que tem à sua frente  Pedro Corrêa,  ao lado de Rodrigo Moreira.

Atrasado, passei pelo salão da padaria indo direto à varanda onde, habitualmente meu Si Fu junta-se a nós para o café  . Ele não estava lá. Ao pegar o telefone para fazer contato notei que estavam em outra mesa, na parte interna da padaria.

É importante que a vivência marcial traga para o To Dai (aluno) uma experiência significativa, e esta não foi diferente. Horas depois, meu Si Fu chamou-me a parte quando já estávamos no Mo Gun  e disse: "Roberto, quando você chega em algum lugar, o olho deve chegar primeiro".

São nas atividades comuns da vida que perdemos mais facilmente o grau de atenção que temos, seja no trânsito, no trabalho, em casa, etc.  Avaliar o cenário, "o olho chegar primeiro" é fundamental para que nossas ações sejam revestidas de uma excelência estratégica.

O Kung-Fu aflora a partir de uma necessidade, os cenários assim como a vida, mudam constantemente, sendo necessário a capacidade de adaptação, não havendo técnica infalível ou uma sequência de treinamentos capaz de gerar o completo desenvolvimento humano, mesmo porque este é um processo contínuo, e como ninguém atinge a perfeição, será sempre um processo inacabado.

  Mestre Senior Julio Camacho ministrando palestra sobre Introdução ao Sistema Ving Tsun. Núcleo Barra da Tijuca, ano 2016.


 A capacidade avaliativa do cenário é fundamental para qualquer pessoa, em qualquer momento e área da vida, e o praticante de Ving Tsun encontra na experiência marcial a oportunidade de avaliar o cenário sob pressão através do combate simbólico. Importante ressaltar aqui que o termo combate simbólico se refere a uma experiência corporal significativa. É oposto ao termo combate real, este levado até a morte, reprovado socialmente, além de ser óbvio não fazer sentido dentro de uma proposta de desenvolvimento humano, onde todos crescem juntos.

Chi Sau: com os braços aderidos, o praticante desenvolve a percepção através dos estímulos que fornece e recebe, desenvolvendo uma reação atenciosa e avaliando sua escolha em um cenário no qual está sob constante pressão.


Com a avaliação do cenário vem a reação, o que não significa aqui se opor ou resistir à uma ação. Segundo a lógica chinesa, reagir é aceitar o que vem para daí então, avaliar a ação. Não há resistência no sentido de ir contra, mas no sentido de se ter uma atenção ao que está a volta, dentro de um cenário em que se encontra inserido.

A fase Sau corresponde  a esta aceitação e assimilação de cenários, e está presente na primeira triologia do Sistema Ving Tsun, composto por Siu Nim Tau, Cham Kiu e Biu Ji.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Vida Kung Fu: um processo de desenvolvimento humano.





Ao receber o chá, meu Mestre Júlio Camacho me aceita formalmente como seu Discípulo.



Se você lançar uma boa semente ao solo na esperança de que ela cresça e se desenvolva formando uma bela e forte árvore, será necessário que alguns elementos estejam envolvidos : uma boa terra, a chuva, o vento e o sol na medida da necessidade daquela que, um dia,  será uma árvore.

Penso no Kung-Fu como o germinar de uma semente que existe em cada um de nós, pronta para ser desenvolvida através de um Sistema que nos possibilite acessar as ferramentas adequadas para tal.  No entanto, apenas isto não é o suficiente. 


Mestre Julio Camacho fala da importância em compreender os ideogramas.


Assim como uma semente para se tornar árvore precisa de todo um ambiente adequado ao seu desenvolvimento, o praticante de Kung-Fu deve contar com um cenário que favoreça o seu desenvolvimento, uma relação capaz de potencializar a percepção sobre si mesmo, seus valores, seus limites, seus potenciais. Um Sistema de Kung-Fu não é um fim em si mesmo, ele é apenas uma referência, e desta forma,  precisa de um modo apropriado de acesso, um ambiente adequado para ser desenvolvido, que é aquilo que os chineses chamam de Sam Faat, termo que recebeu no Ocidente, através de Patriarca Moy Yat , a denominação de Vida Kung-Fu.


Patriarca Moy Yat deixou um rico legado: a Vida Kung-Fu como modo de acesso ao Sistema Ving Tsun.




Kung-Fu não se ensina, apenas se aprende e desta forma, quem transmite aprende junto com aquele que recebe a transmissão, não havendo de forma alguma qualquer passividade no processo, o que é muito importante por ser o praticante agente de seu próprio aprendizado, e ainda que não perceba seu desenvolvimento, seu Kung-Fu certamente aparecerá no momento em que for preciso aparecer.

                        Meu Mestre e eu durante a comemoração do Ano Novo Chinês (Ano do Galo de Fogo).

É na relação próxima com seu Si Fu que o praticante vai compreendendo melhor sobre sua caminhada, é no estreitamento da relação, ou seja, é com a Vida Kung-Fu que a percepção sobre si e sobre o que está à sua volta se torna mais clara, afinal Kung-Fu é muito mais do que um nome genérico para artes marciais vindas da China. É uma habilidade incorporada à pessoa, em qualquer área do saber, ou seja, é um processo de desenvolvimento humano.


 É por esta razão que eu não pratico Ving Tsun por causa daquilo que sei. Pratico por causa daquilo que sinto. É a Vida Kung-Fu que me move através do Sistema Ving Tsun.