segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Relaxar e ser gentil.

Patriarca Moy Yat.



 Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, nos disse que certa vez perguntaram à meu Si Taai Gung, Patriarca Moy Yat:

- O que é ter alto nível de Kung Fu?

 A resposta surpreendeu aquela audiência: 

- É a capacidade de relaxar e ser gentil.

Por certo, não era esta a resposta que esperavam. Quando ouvimos falar de Kung Fu, o que vem imediatamente como uma imagem construída é de uma luta ou algo assim. A resposta que para aquela audiência certamente pareceu insólita, é na realidade a súmula daquilo que busco viver dentro da Família Kung Fu.



Si Fu caminha com Si Taai Gung Moy Yat.



O relaxamento é a melhor via de aumento de percepção. Alguém tenso não consegue estar atento o suficiente para compreender o cenário, avaliá-lo e dar uma resposta eficaz. 

Não se confunde relaxamento com distração, mas sim uma ausência ou redução de tensão, capaz de elevar a percepção, de não buscar manipular as circunstâncias, pelo contrário, se apoiar nelas, atuando em consonância com os acontecimentos. A chance de acerto com a leitura adequada das circunstâncias aumenta muito, e embora não seja uma certeza, fato é que uma leitura equivocada reduz e muito a chance de sucesso. 

Quando falamos em gentileza, falamos de uma relação com o outro. Traz a ideia de relação, conexão. A gentileza ocorre exatamente quando temos atenção cuidadosa para com o outro. É na atitude cuidadosa,  nos sentidos que cabem na palavra cuidado, seja o de cuidar ou de precaução. E quando cuidamos de forma atenta, chegamos ao que se chama zelo. 

O zelo é a condição não marcial para estar atento ao outro. Em um cenário de luta por exemplo, estar relaxado, ou seja, com baixo nível de tensão, permite uma leitura melhor das circunstâncias. Isso somado à gentileza, ao olhar cuidadoso para com o outro, para os sinais que a outra pessoa nos envia, faz tudo ficar mais perceptível. Não tem haver com ser bonzinho, e sim em estar aberto à leitura daquilo que o cenário e o outro inserido nele, oferecem, e atuar a partir daí. A vitória muitas vezes não vem unicamente de nosso esforço, mas de um cenário que requer leitura, e de alguém que nos oferta esta mesma vitória através de suas próprias atitudes. Não cabe aí nenhum tipo de manipulação ou esforço extra, afinal, se estou relaxado, consigo perceber o que a minha volta me favorece, e como a gentileza é relacional, esta postura me oferece a forma adequada de agir com o outro, através daquilo que o outro me oferta. 



Eu recebendo meu broche de Discípulo das mãos do meu Si Fu. 



segunda-feira, 5 de outubro de 2020

As várias faces da guarda.

 

Si Fu nos orientando durante a sessão de Baat Jaam Do ( 八斬刀).

Ouvimos hoje de nosso Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, sobre um excelente exercício para ajudar a controlar a ansiedade: ficar em guarda. 

Durante toda a minha trajetória dentro do Sistema Ving Tsun, sempre ouvi considerações sobre a máxima "relaxar na crise". Confesso que esta sentença nunca fez tanto sentido para mim como faz agora. No cenário de prática do Nível Baat Jaam Do (  八斬刀) você está segurando duas facas, que na realidade são metades de uma única, com desdobramentos que personificam um só movimento, sempre com a intenção de avançar, sofrendo variações porque algo que você precisa compreender para dar sentido a cada um dos desdobramentos e conectá-los em todo harmônico, impediu que os movimentos fossem desferidos todos com a intenção de disparo para frente. Desta forma, estar ou não em guarda o tempo todo, em todos os movimentos, fará a diferença entre praticar este Nível ou apenas reproduzir uma coreografia com facas nas mãos. 

O manuseio de armas, simboliza a morte e o cenário que se desdobra com a prática, fala em matar ou morrer o tempo todo, e aí o relaxamento para poder manter a intenção de guarda em todas as variações de movimentos executados com as facas, é um grande e necessário desafio para a compreensão deste Nível.

Entender a guarda como o estado de atenção, pronto para o disparo imediato o tempo todo e a qualquer momento, e estudar as deformações provocadas na guarda, é compreender o que ocorreu dentro de cenários que apontam para estas variações.

 O estudo das possibilidades que conduzem às várias faces da guarda, eleva a percepção, e sem dúvida,  ajuda a controlar a ansiedade, estimulando o praticante de Ving Tsun à se libertar de regras, fazendo da sensibilidade sua capacidade de sintetizar as ações, para adiante, apenas revisitar as listagens do Sistema, sem depender mais dele. 



sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Conviver Kung Fu.

 

                            Eu e meu irmão Kung Fu, Diretor do Núcleo Ipanema, Cláudio Teixeira.


Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho nos diz: "a diferença entre uma Família de sangue e uma Família Kung Fu, é que a primeira não escolhemos, a segunda sim." E esta escolha implica em algumas consequências sobre a nossa capacidade de refinar as formas de convivência, respeito e companheirismo, que desenvolvemos dentro de um Mo Gun (Casa de Guerra), praticando dentro de um  cenário de crise, despertando para a importância que há em crescermos juntos.

No dia de ontem, estive visitando o Núcleo Ipanema, e no final de um dia muito produtivo, eu e meu irmão Cláudio Teixeira, diretor do Núcleo, estudamos o Da Hung Jong (樁).Esta troca, além de muito profícua, personifica o espírito do Clã Jo Lei Ou, que é o de seguirmos juntos.

Dentro de uma Família Kung Fu, quebramos paradigmas sociais que apontam para a competição e superação do outro. O que nós construímos é o aprendizado contínuo através do zelo, nos dedicando ao nosso desenvolvimento também através da transmissão, gerando o refinamento do Kung Fu de outras pessoas.  Meu Kung Fu melhora quando desperto para a importância em apoiar a construção do Kung Fu de todos, transmitindo aquilo que adquiri de conhecimento como praticante, porém de modo algum vendendo "verdades", sempre respeitando a busca de cada um, apenas apoiando através do que aprendi,  sendo só mais um em uma rede fraterna para crescimento individual, resultando o proveito coletivo.

Nos finais de semana, com mesmo espírito, visito outra unidade: O Núcleo Méier, que tem como Líder meu Si Hing, Mestre Qualificado Thiago Pereira, que vem me ajudando a refinar meu processo dentro do Nível que estou iniciando, o Baat Jaam Do (  刀).

Da minha parte, à toda visita procuro apoiar os trabalhos lá realizados com os praticantes mais novos, e assim vamos nos apoiando e crescendo juntos. 

A Família Kung Fu é um laboratório para estabelecermos relações mais fraternas, dentro de um Mundo que parece ter crescido em tecnologia, e se aviltado no quesito humanidade. 


                                            Eu e meu irmão Kung Fu, Si Hing Thiago Pereira.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Sequência.

                              Minha Admissão na Família Kung Fu. Apresentando Sequência Siu Nim Do.




 Você por acaso já iniciou algo que considerava importante e, de repente, viu aquilo que acreditava ser algo muito bom, aquilo que foi destinatário do seu empenho por muito tempo, perder-se de você, e não ser a preparação de um segundo momento valoroso para sua vida?  

Se a resposta for sim, você não está sozinho. Porém, este Papo Kung-Fu vai falar sobre como esta tomada de consciência, unida à prática do Ving Tsun, despertou em mim não apenas a certeza da importância de dar o devido valor ao esforço que já fiz, mas para além disso, ter feito dele uma preparação para viver dentro dos valores que vivo hoje, e fazer com que a soma de tudo aquilo que o primeiro movimento desencadeou, venha a se apresentar como uma sequência lógica.




                                               Prática de Domingo: Antigo Estúdio Barra.



O próprio significado da palavra sequência: "ato ou efeito de dar continuidade ao que foi iniciado" alude para a atitude de fazer de cada passo que damos na vida uma preparação, e o seguinte, um resultado conexo. 

As sequências no Sistema Ving Tsun apresentam movimentos que não são um fim em si mesmos, eles despertam a consciência do corpo para que através daquelas se adquiram competências que desencadeiam o processo de desenvolvimento do praticante. 

Pensar nos movimentos apenas com aplicações para "a luta" é perder o que a sequência oferece de melhor: despertar a consciência corporal e para além disso, compreender como um movimento anterior é fundamental para a realização do próximo. Não existem quebras, não se tratam de "movimentos isolados" como se cada um fosse um fim em si mesmo. O anterior prepara a chegada do próximo, formando um desencadeamento lógico.  

Quando aplicamos em todas as áreas das nossas vidas, uma postura com este espírito, sendo os movimentos seguintes carreados pelos anteriores, atuamos com mais qualidade, alcançamos resultados mais eficientes. Valorizamos nosso esforço, compreendemos que todas as nossas atitudes apresentam consequências e que uma postura madura de um praticante de  Kung Fu respeita seus movimentos a tal monta que, compreende serem eles o prenúncio dos próximos, de que estão todos conectados.

É o trabalho de lançar a semente e cuidar do broto que irá, com o tempo, gerar a flor e o fruto da árvore. E assim, como a consequência do germinar é a árvore, a sequência traz um resultado completo, através do que cada movimento faz, por ser ele o fim do anterior e começo do próximo. 

Assim  não há gasto inútil de energia, tudo o que fazemos tem um objetivo claro, e uma sequência lógica. Ela é o agora, vinda do antes, e que aponta o depois.




                                          Si Fu e eu: Evento em Restaurante no bairro da Tijuca.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Do treino ao estudo.


Si Fu transmitindo o Nível Baat Jaam Do.


Hoje ouvi do meu Si Fu: "mais do que treinar, você deve decupar os movimentos." Esta divisão em sequências, como se fossem planos numerados para facilitar a gravação de um filme, é este o espírito daquilo que meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, me propôs para o estudo das partes que integram a sequência do Nível Baat Jaam Do. 

A escolha daquele verbo para traduzir com qual ânimo é adequado desenvolver a prática foi cirúrgica. Neste nível, não se pode tentar isolar os movimentos sem prejuízo à sua lógica que é a de algo contínuo, não pode ser fracionado por se tratar de "pedaços" dentro de uma lógica de síntese.

Assim como as cenas de um filme formam uma única história, assim os movimentos realizados com o Do, narram algo que não cabe fragmentar.



Eu e Rodrigo Moreira praticando o Do.



E dentro desta unicidade existem fragmentos de posições, energias, todas unidas formando algo uno, devendo ser respeitada a lógica dos movimentos, o emprego adequado das energias e estruturas que se desencadeiam se completando em um todo harmônico. Com todas estas variáveis para se considerar, não cabe falar apenas em um treino com repetição de movimentos para que se chegue à execução. Há na verdade um estudo, uma busca de lapidação de movimentos, que unidos, integram a formação de um sistema harmônico.













 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Saber ler o que se vê.











             
Si Fu durante Seminário do Programa Fundamental. 




 Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, disse na prática de hoje: "Quem inventou o ilusionismo foram os chineses (...) é preciso saber para onde se olha." 

Quanto mais se avança no Sistema Ving Tsun, maior é o desafio para que se olhe na direção daquilo que realmente deve ser visto. Quanto mais tempo se vivencia, vai ficando menos explícito o que se transmite, é necessário que seja assim, por ser o olhar atento uma característica intrínseca ao amadurecimento do Kung Fu.

É um processo de desenvolvimento humano, e desta forma, adquirir esta maturidade dentro da prática, é um reflexo da própria vida, afinal ter uma visão mais apurada, é característica comum a quem já vivenciou determinada experiência, se dedicando ao seu estudo por mais tempo.



                          Si Fu orienta dois Discípulos.      

    

Comparo esta experiência ao uso de um microscópio: muitas coisas não podemos ver a olho nú, de forma que aquele instrumento óptico nos dá a condição de enxergarmos aquilo que nossos olhos não podem ver sozinhos. E com a prática dentro do Sistema Ving Tsun, é como se meu Si Fu me fornecesse este instrumento que amplia a visão, mas ainda assim há um grau de responsabilidade apenas meu; afinal se eu fizer uso de um microscópio e não ajustar no foco correto, ele não será útil. Da mesma forma, é com a prática daquilo que é transmitido que "a minha lente" estará ajustada no grau correto.  Apenas com o estudo dedicado e estando sempre atento ao que meu Si Fu diz, é que desenvolverei a competência de olhar para o que importa, fazendo a leitura correta do que vejo, sendo coautor na construção do meu Kung Fu. 


                                   

             Almoço entre irmãos Kung Fu.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Para onde aponta a faca.


                                               Eu posando com o Do. Núcleo Ipanema. 2020.



 Durante a minha vivência dentro do Sistema Ving Tsun, uma verdade sempre volta para me desafiar. Para compreender melhor sobre o que é esta verdade que eu estou me referindo, vou resgatar uma frase que ouvi de meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho: "Ving Tsun é para qualquer pessoa, mas não é para qualquer um." 

A dedicação para o desenvolvimento do Kung Fu não envolve apenas movimentos corporais ou uma habilidade física. A compreensão sobre si mesmo, sobre seus limites, a leitura de suas competências e inabilidades, o poder de gerar um distanciamento traduzido em um olhar atento aos cenários, que não comemora a vitória e nem chora o fracasso, é um caminho que qualquer um pode trilhar. Mas precisa querer. E este desejo envolve entre outras coisas muitas renúncias, e quase todas, são personificadas em lutas internas. Eu vejo que o Sistema Ving Tsun coloca um espelho diante de mim, para que eu me reconheça e veja tudo aquilo que sou, goste ou não daquilo que vejo.



  Foto após a Prática da Familia Jo Lei Ou, Unidade Tijuca.



Meu Mestre diz que um Si Fu sempre espera. E não é uma atitude passiva, é como alguém que lança uma semente e vive a esperança do germinar e crescimento da árvore. Se eu como Discípulo, sou uma árvore em potencial, cabe a mim aproveitar a boa terra, o bom agricultor, o adubo, a água e a luz do sol, que representam tudo aquilo que meu Si Fu faz por mim. Da mesma forma, o meu crescimento não é passivo, afinal boa árvore deve dar frutos, e um Discípulo (pelo menos é a forma que compreendo) deve representar da melhor forma que puder o bom nome de seu Mestre.

No Nível Baat Jaam Do, devemos a todo momento estar com a faca apontada para a direção correta. Uma arma simboliza a morte, e se ela está na direção errada, a do oponente pode não estar. É um grau de precisão que não admite erro, é um cenário onde simbolicamente, é matar ou morrer o tempo todo. É a constante cobrança de níveis de atenção e de precisão desafiadores. 

E como eu afirmei no início da postagem, que no Sistema Ving Tsun, há uma verdade que sempre volta para me desafiar, apenas o mergulho dentro de mim mesmo será capaz de responder mais uma vez a este desafio, a encontrar esta verdade, e certamente desta vez, o mergulho será bem mais fundo. E novamente, cada vez mais, ao encontrar comigo mesmo, com tudo que eu tenho, de bom e ruim, vou me reconhecendo a cada dia, mais e mais, na frase de meu Si Fu.

 Sendo eu uma pessoa qualquer, mas não sendo qualquer um.  

 


    Meu Si Fu me orienta durante o Convite para o meu Discipulado.