segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Relaxar e ser gentil.

Patriarca Moy Yat.



 Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, nos disse que certa vez perguntaram à meu Si Taai Gung, Patriarca Moy Yat:

- O que é ter alto nível de Kung Fu?

 A resposta surpreendeu aquela audiência: 

- É a capacidade de relaxar e ser gentil.

Por certo, não era esta a resposta que esperavam. Quando ouvimos falar de Kung Fu, o que vem imediatamente como uma imagem construída é de uma luta ou algo assim. A resposta que para aquela audiência certamente pareceu insólita, é na realidade a súmula daquilo que busco viver dentro da Família Kung Fu.



Si Fu caminha com Si Taai Gung Moy Yat.



O relaxamento é a melhor via de aumento de percepção. Alguém tenso não consegue estar atento o suficiente para compreender o cenário, avaliá-lo e dar uma resposta eficaz. 

Não se confunde relaxamento com distração, mas sim uma ausência ou redução de tensão, capaz de elevar a percepção, de não buscar manipular as circunstâncias, pelo contrário, se apoiar nelas, atuando em consonância com os acontecimentos. A chance de acerto com a leitura adequada das circunstâncias aumenta muito, e embora não seja uma certeza, fato é que uma leitura equivocada reduz e muito a chance de sucesso. 

Quando falamos em gentileza, falamos de uma relação com o outro. Traz a ideia de relação, conexão. A gentileza ocorre exatamente quando temos atenção cuidadosa para com o outro. É na atitude cuidadosa,  nos sentidos que cabem na palavra cuidado, seja o de cuidar ou de precaução. E quando cuidamos de forma atenta, chegamos ao que se chama zelo. 

O zelo é a condição não marcial para estar atento ao outro. Em um cenário de luta por exemplo, estar relaxado, ou seja, com baixo nível de tensão, permite uma leitura melhor das circunstâncias. Isso somado à gentileza, ao olhar cuidadoso para com o outro, para os sinais que a outra pessoa nos envia, faz tudo ficar mais perceptível. Não tem haver com ser bonzinho, e sim em estar aberto à leitura daquilo que o cenário e o outro inserido nele, oferecem, e atuar a partir daí. A vitória muitas vezes não vem unicamente de nosso esforço, mas de um cenário que requer leitura, e de alguém que nos oferta esta mesma vitória através de suas próprias atitudes. Não cabe aí nenhum tipo de manipulação ou esforço extra, afinal, se estou relaxado, consigo perceber o que a minha volta me favorece, e como a gentileza é relacional, esta postura me oferece a forma adequada de agir com o outro, através daquilo que o outro me oferta. 



Eu recebendo meu broche de Discípulo das mãos do meu Si Fu. 



segunda-feira, 5 de outubro de 2020

As várias faces da guarda.

 

Si Fu nos orientando durante a sessão de Baat Jaam Do ( 八斬刀).

Ouvimos hoje de nosso Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, sobre um excelente exercício para ajudar a controlar a ansiedade: ficar em guarda. 

Durante toda a minha trajetória dentro do Sistema Ving Tsun, sempre ouvi considerações sobre a máxima "relaxar na crise". Confesso que esta sentença nunca fez tanto sentido para mim como faz agora. No cenário de prática do Nível Baat Jaam Do (  八斬刀) você está segurando duas facas, que na realidade são metades de uma única, com desdobramentos que personificam um só movimento, sempre com a intenção de avançar, sofrendo variações porque algo que você precisa compreender para dar sentido a cada um dos desdobramentos e conectá-los em todo harmônico, impediu que os movimentos fossem desferidos todos com a intenção de disparo para frente. Desta forma, estar ou não em guarda o tempo todo, em todos os movimentos, fará a diferença entre praticar este Nível ou apenas reproduzir uma coreografia com facas nas mãos. 

O manuseio de armas, simboliza a morte e o cenário que se desdobra com a prática, fala em matar ou morrer o tempo todo, e aí o relaxamento para poder manter a intenção de guarda em todas as variações de movimentos executados com as facas, é um grande e necessário desafio para a compreensão deste Nível.

Entender a guarda como o estado de atenção, pronto para o disparo imediato o tempo todo e a qualquer momento, e estudar as deformações provocadas na guarda, é compreender o que ocorreu dentro de cenários que apontam para estas variações.

 O estudo das possibilidades que conduzem às várias faces da guarda, eleva a percepção, e sem dúvida,  ajuda a controlar a ansiedade, estimulando o praticante de Ving Tsun à se libertar de regras, fazendo da sensibilidade sua capacidade de sintetizar as ações, para adiante, apenas revisitar as listagens do Sistema, sem depender mais dele. 



sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Conviver Kung Fu.

 

                            Eu e meu irmão Kung Fu, Diretor do Núcleo Ipanema, Cláudio Teixeira.


Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho nos diz: "a diferença entre uma Família de sangue e uma Família Kung Fu, é que a primeira não escolhemos, a segunda sim." E esta escolha implica em algumas consequências sobre a nossa capacidade de refinar as formas de convivência, respeito e companheirismo, que desenvolvemos dentro de um Mo Gun (Casa de Guerra), praticando dentro de um  cenário de crise, despertando para a importância que há em crescermos juntos.

No dia de ontem, estive visitando o Núcleo Ipanema, e no final de um dia muito produtivo, eu e meu irmão Cláudio Teixeira, diretor do Núcleo, estudamos o Da Hung Jong (樁).Esta troca, além de muito profícua, personifica o espírito do Clã Jo Lei Ou, que é o de seguirmos juntos.

Dentro de uma Família Kung Fu, quebramos paradigmas sociais que apontam para a competição e superação do outro. O que nós construímos é o aprendizado contínuo através do zelo, nos dedicando ao nosso desenvolvimento também através da transmissão, gerando o refinamento do Kung Fu de outras pessoas.  Meu Kung Fu melhora quando desperto para a importância em apoiar a construção do Kung Fu de todos, transmitindo aquilo que adquiri de conhecimento como praticante, porém de modo algum vendendo "verdades", sempre respeitando a busca de cada um, apenas apoiando através do que aprendi,  sendo só mais um em uma rede fraterna para crescimento individual, resultando o proveito coletivo.

Nos finais de semana, com mesmo espírito, visito outra unidade: O Núcleo Méier, que tem como Líder meu Si Hing, Mestre Qualificado Thiago Pereira, que vem me ajudando a refinar meu processo dentro do Nível que estou iniciando, o Baat Jaam Do (  刀).

Da minha parte, à toda visita procuro apoiar os trabalhos lá realizados com os praticantes mais novos, e assim vamos nos apoiando e crescendo juntos. 

A Família Kung Fu é um laboratório para estabelecermos relações mais fraternas, dentro de um Mundo que parece ter crescido em tecnologia, e se aviltado no quesito humanidade. 


                                            Eu e meu irmão Kung Fu, Si Hing Thiago Pereira.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Sequência.

                              Minha Admissão na Família Kung Fu. Apresentando Sequência Siu Nim Do.




 Você por acaso já iniciou algo que considerava importante e, de repente, viu aquilo que acreditava ser algo muito bom, aquilo que foi destinatário do seu empenho por muito tempo, perder-se de você, e não ser a preparação de um segundo momento valoroso para sua vida?  

Se a resposta for sim, você não está sozinho. Porém, este Papo Kung-Fu vai falar sobre como esta tomada de consciência, unida à prática do Ving Tsun, despertou em mim não apenas a certeza da importância de dar o devido valor ao esforço que já fiz, mas para além disso, ter feito dele uma preparação para viver dentro dos valores que vivo hoje, e fazer com que a soma de tudo aquilo que o primeiro movimento desencadeou, venha a se apresentar como uma sequência lógica.




                                               Prática de Domingo: Antigo Estúdio Barra.



O próprio significado da palavra sequência: "ato ou efeito de dar continuidade ao que foi iniciado" alude para a atitude de fazer de cada passo que damos na vida uma preparação, e o seguinte, um resultado conexo. 

As sequências no Sistema Ving Tsun apresentam movimentos que não são um fim em si mesmos, eles despertam a consciência do corpo para que através daquelas se adquiram competências que desencadeiam o processo de desenvolvimento do praticante. 

Pensar nos movimentos apenas com aplicações para "a luta" é perder o que a sequência oferece de melhor: despertar a consciência corporal e para além disso, compreender como um movimento anterior é fundamental para a realização do próximo. Não existem quebras, não se tratam de "movimentos isolados" como se cada um fosse um fim em si mesmo. O anterior prepara a chegada do próximo, formando um desencadeamento lógico.  

Quando aplicamos em todas as áreas das nossas vidas, uma postura com este espírito, sendo os movimentos seguintes carreados pelos anteriores, atuamos com mais qualidade, alcançamos resultados mais eficientes. Valorizamos nosso esforço, compreendemos que todas as nossas atitudes apresentam consequências e que uma postura madura de um praticante de  Kung Fu respeita seus movimentos a tal monta que, compreende serem eles o prenúncio dos próximos, de que estão todos conectados.

É o trabalho de lançar a semente e cuidar do broto que irá, com o tempo, gerar a flor e o fruto da árvore. E assim, como a consequência do germinar é a árvore, a sequência traz um resultado completo, através do que cada movimento faz, por ser ele o fim do anterior e começo do próximo. 

Assim  não há gasto inútil de energia, tudo o que fazemos tem um objetivo claro, e uma sequência lógica. Ela é o agora, vinda do antes, e que aponta o depois.




                                          Si Fu e eu: Evento em Restaurante no bairro da Tijuca.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Do treino ao estudo.


Si Fu transmitindo o Nível Baat Jaam Do.


Hoje ouvi do meu Si Fu: "mais do que treinar, você deve decupar os movimentos." Esta divisão em sequências, como se fossem planos numerados para facilitar a gravação de um filme, é este o espírito daquilo que meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, me propôs para o estudo das partes que integram a sequência do Nível Baat Jaam Do. 

A escolha daquele verbo para traduzir com qual ânimo é adequado desenvolver a prática foi cirúrgica. Neste nível, não se pode tentar isolar os movimentos sem prejuízo à sua lógica que é a de algo contínuo, não pode ser fracionado por se tratar de "pedaços" dentro de uma lógica de síntese.

Assim como as cenas de um filme formam uma única história, assim os movimentos realizados com o Do, narram algo que não cabe fragmentar.



Eu e Rodrigo Moreira praticando o Do.



E dentro desta unicidade existem fragmentos de posições, energias, todas unidas formando algo uno, devendo ser respeitada a lógica dos movimentos, o emprego adequado das energias e estruturas que se desencadeiam se completando em um todo harmônico. Com todas estas variáveis para se considerar, não cabe falar apenas em um treino com repetição de movimentos para que se chegue à execução. Há na verdade um estudo, uma busca de lapidação de movimentos, que unidos, integram a formação de um sistema harmônico.













 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Saber ler o que se vê.











             
Si Fu durante Seminário do Programa Fundamental. 




 Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, disse na prática de hoje: "Quem inventou o ilusionismo foram os chineses (...) é preciso saber para onde se olha." 

Quanto mais se avança no Sistema Ving Tsun, maior é o desafio para que se olhe na direção daquilo que realmente deve ser visto. Quanto mais tempo se vivencia, vai ficando menos explícito o que se transmite, é necessário que seja assim, por ser o olhar atento uma característica intrínseca ao amadurecimento do Kung Fu.

É um processo de desenvolvimento humano, e desta forma, adquirir esta maturidade dentro da prática, é um reflexo da própria vida, afinal ter uma visão mais apurada, é característica comum a quem já vivenciou determinada experiência, se dedicando ao seu estudo por mais tempo.



                          Si Fu orienta dois Discípulos.      

    

Comparo esta experiência ao uso de um microscópio: muitas coisas não podemos ver a olho nú, de forma que aquele instrumento óptico nos dá a condição de enxergarmos aquilo que nossos olhos não podem ver sozinhos. E com a prática dentro do Sistema Ving Tsun, é como se meu Si Fu me fornecesse este instrumento que amplia a visão, mas ainda assim há um grau de responsabilidade apenas meu; afinal se eu fizer uso de um microscópio e não ajustar no foco correto, ele não será útil. Da mesma forma, é com a prática daquilo que é transmitido que "a minha lente" estará ajustada no grau correto.  Apenas com o estudo dedicado e estando sempre atento ao que meu Si Fu diz, é que desenvolverei a competência de olhar para o que importa, fazendo a leitura correta do que vejo, sendo coautor na construção do meu Kung Fu. 


                                   

             Almoço entre irmãos Kung Fu.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Para onde aponta a faca.


                                               Eu posando com o Do. Núcleo Ipanema. 2020.



 Durante a minha vivência dentro do Sistema Ving Tsun, uma verdade sempre volta para me desafiar. Para compreender melhor sobre o que é esta verdade que eu estou me referindo, vou resgatar uma frase que ouvi de meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho: "Ving Tsun é para qualquer pessoa, mas não é para qualquer um." 

A dedicação para o desenvolvimento do Kung Fu não envolve apenas movimentos corporais ou uma habilidade física. A compreensão sobre si mesmo, sobre seus limites, a leitura de suas competências e inabilidades, o poder de gerar um distanciamento traduzido em um olhar atento aos cenários, que não comemora a vitória e nem chora o fracasso, é um caminho que qualquer um pode trilhar. Mas precisa querer. E este desejo envolve entre outras coisas muitas renúncias, e quase todas, são personificadas em lutas internas. Eu vejo que o Sistema Ving Tsun coloca um espelho diante de mim, para que eu me reconheça e veja tudo aquilo que sou, goste ou não daquilo que vejo.



  Foto após a Prática da Familia Jo Lei Ou, Unidade Tijuca.



Meu Mestre diz que um Si Fu sempre espera. E não é uma atitude passiva, é como alguém que lança uma semente e vive a esperança do germinar e crescimento da árvore. Se eu como Discípulo, sou uma árvore em potencial, cabe a mim aproveitar a boa terra, o bom agricultor, o adubo, a água e a luz do sol, que representam tudo aquilo que meu Si Fu faz por mim. Da mesma forma, o meu crescimento não é passivo, afinal boa árvore deve dar frutos, e um Discípulo (pelo menos é a forma que compreendo) deve representar da melhor forma que puder o bom nome de seu Mestre.

No Nível Baat Jaam Do, devemos a todo momento estar com a faca apontada para a direção correta. Uma arma simboliza a morte, e se ela está na direção errada, a do oponente pode não estar. É um grau de precisão que não admite erro, é um cenário onde simbolicamente, é matar ou morrer o tempo todo. É a constante cobrança de níveis de atenção e de precisão desafiadores. 

E como eu afirmei no início da postagem, que no Sistema Ving Tsun, há uma verdade que sempre volta para me desafiar, apenas o mergulho dentro de mim mesmo será capaz de responder mais uma vez a este desafio, a encontrar esta verdade, e certamente desta vez, o mergulho será bem mais fundo. E novamente, cada vez mais, ao encontrar comigo mesmo, com tudo que eu tenho, de bom e ruim, vou me reconhecendo a cada dia, mais e mais, na frase de meu Si Fu.

 Sendo eu uma pessoa qualquer, mas não sendo qualquer um.  

 


    Meu Si Fu me orienta durante o Convite para o meu Discipulado. 




terça-feira, 25 de agosto de 2020

Irmãos Kung Fu.


Aniversário de 50 Anos do Si Fu: eu com dois irmãos Kung Fu: Thiago Pereira (ao meu lado) e Rodrigo Moreira (à frente).



 A civilização Ocidental, com sua Cultura majoritariamente  judaico-cristã, incutiu como um valor de que todos os seres humanos são irmãos, devendo cultivar uma fraternidade universal. 

Vindo do Oriente, o estudo dos Sistemas Tradicionais de Kung Fu, traz termos como irmão mais velho (Si Hing), mais novo (Si Dai) e suas respectivas variações no feminino (Si Jeh e Si Mui). Por se tratar de outra Cultura, é natural que apresente uma visão diferente sobre como as relações são irmanadas dentro de uma Família Kung Fu. Neste Blog faço uma breve introdução sobre este tema. 

O (a) irmão (a) mais velho(a), Si Hing ou Si Jeh, são pessoas que chegaram antes na Família Kung Fu, "nasceram mais cedo." Quem chega primeiro tem acesso antes ao conteúdo do Sistema, e tem a responsabilidade de cuidar dos que chegaram depois. Embora seja uma responsabilidade em uma Família Kung Fu ela é totalmente voluntária, ou seja, você é Si Hing ou Si Jeh por ter chegado primeiro, isto é fato, mas o que esta posição dentro da Família Kung Fu significa para você, é de aceitação livre, depende unicamente de como o praticante deseja desenvolver a forma com a qual irá se relacionar com os demais. 

A relação principal dentro de uma Família Kung Fu se estabelece entre seu Mestre e você, em meu caso, meu Si Fu Mestre Senior Julio Camacho, e eu.  É a partir daí que meu Kung Fu irá se desenvolver. A partir deste marco inicial da relação individualizada, o To Dai se irmanará com os demais, e todos se apoiarão e se desenvolverão juntos. 



Depois de um sábado de prática: Ao sairmos do Mo Gun, eu e meu irmão Kung Fu Vladmir Anchieta.


O local de prática de uma Família Kung Fu, chamado Mo Gun (Casa de Guerra) é um cenário preparado para o desenvolvimento de cada praticante. Nele experimentamos diversos estímulos corporais, com o potencial de gerar nosso desenvolvimento. Para esta experiência, é fundamental que aqueles estímulos sejam proporcionados por um número maior possível de pessoas. Serão com as múltiplas experiências que desenvolveremos a capacidade de perceber o outro, saindo da resposta pronta, e atuarmos diante de cada estímulo da forma adequada ao que se pede naquele momento e naquela circunstância específica.

Toda e qualquer relação é alicerçada naquilo que cada um que a compõe traz para ela. Em particular, procuro ser um Si Hing e um Si Dai (tenho as duas posições na Família Kung Fu de meu Si Fu) pronto para colaborar, aprendendo e transmitindo com tudo aquilo que tive acesso. A melhor forma de me aperfeiçoar é dividindo o conhecimento que recebi, e de forma pura e legítima, respeitando os limites e potenciais existentes em cada pessoa, esvaziando ideias próprias, respeitando a pureza do Kung Fu de cada um.  

O meu crescimento como pessoa reside naquilo que consigo melhorar em minha essência, não preciso ser outra pessoa, e sim potencializar aquilo que eu tenho de melhor,  e este desenvolvimento se personifica através da relação que estabeleço com os outros, e em particular dentro de uma Família Kung Fu, daquilo que extraio da relação com meu Si Fu e meus irmãos Kung Fu. 




Si Fu, eu e dois irmãos Kung Fu: Thales Guimarães (no centro da foto) e Pedro Ivo.  

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Morte.











Uma frase dita pelo meu irmão Kung Fu Guilherme de Farias, na prática de hoje sobre as facas do Ving Tsun, me fez lembrar de uma citação presente no Bhagavad Gita: "Eu me tornei a morte, o destruidor de mundos."
Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, já nos disse algumas vezes: "arma não é para criança (...) a atitude mental deve mudar." Em outra ocasião disse: "a luta começa quando a energia acaba." E chegamos ao Baat Jaam Do. 
E a frase dita pelo Guilherme: "as facas são armas de morte." Um movimento deve definir tudo, e não há espaço para erro ou hesitação. Aquele detalhe ou aquele passo mal dado, qualquer coisa, o mínimo que seja, só te oferece um resultado: a morte. Ela é evento único, não há substituição ou segunda chance. A definitividade deve estar presente em tudo, e a mente flutuante, é o passaporte para o fim; a atenção em cada movimento em cada detalhe determinam quem é você dentro de um cenário onde tudo tem caráter definitivo. 
Um nível que te apresenta este cenário, não permite confusão de sentimentos. Aqui não cabe tristeza por não conseguir, raiva por não acertar, nem medo de errar. Aqui só há espaço para o estudo cada vez mais preciso, e compreender a morte em um cenário de prática como este, sem dúvida é desafiador e fascinante.
Poucos desafios se impõem com tanta força como abraçar a morte em um cenário de estudo e perceber que você nunca sairá diferente dele. 
A dedicação, a busca da compreensão de cada ponto, que cada detalhe fará a diferença entre matar ou morrer. Quando este espírito incorpora a prática, fica de lado a atitude tola de uma coreografia de movimentos e entra a necessidade de compreender a fundo porque cada movimento está ali, desencadeado daquela forma. 
É a diferença entre matar ou morrer. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Leitura dos passos.


Eu, e meus irmão Kung Fu, Guilherme de Farias(de pé) e Cláudio Teixeira.




 Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho nos fala da importância que há em estar atento com os próprios movimentos. É na atenção a tudo que realizamos com nosso corpo, na conexão entre cada parte, formando um todo harmônico, que está a diferença entre praticar Kung Fu ou apenas repetir gestos coreografados. 

A atenção especial ao próprio corpo e às conexões que ele realiza para a execução de cada movimento, é um caminho que aponta  na direção do auto conhecimento. Afinal, é comum que façamos diversas atividades cotidianas com um automatismo que não raro, furta a qualidade daquilo que fazemos, ações que repetem apenas os gestos universais, não pensamos, não atuamos de fato, apenas reagimos aos estímulos. E entrar neste espiral de massificação é uma viagem que nos leva para longe de nossa essência. Paramos de oferecer ao nosso corpo os estímulos que possam colocá-lo em diálogo com as diversas partes que, reunidas, formam o todo que somos nós, não percebemos nossos membros reagindo em um conjunto desarmônico, o que significa desconhecermos a nós mesmos. 



A prática do Kung Fu retorna o nosso olhar, nossa atenção para dentro, para que possamos ver melhor para fora, e começamos a perceber quais são as conexões internas que fazemos e que não há separação de corpo e mente como popularmente se propaga, que na realidade, somos uma unidade que precisa interagir com o meio externo como uma unidade harmônica e equilibrada. Para alcançar este objetivo, o praticante desenvolve seu Kung Fu a partir de um Sistema que apresenta uma listagem que irá orientá-lo. 

De posse daquilo que o Sistema oferece, o praticante irá desenvolver-se encontrando um auto conhecimento a ponto de, com o passar dos anos de prática, libertar-se do próprio Sistema que lhe serviu de base ao desenvolvimento. E ao encontrar sua expressão pessoal, poderá o praticante dar ao próprio Sistema que o auxiliou em sua preparação, a contribuição de sua leitura apurada de algo que, sabidamente, o transformou em si mesmo.  



  

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Andar na linha.



Si Fu demonstrando com as facas do Sistema Ving Tsun. 





Existe uma anedota que diz: "o último homem que andou na linha, o trem matou." Agora quando o assunto é Kung Fu, mais especificamente Baat Jaam Do, saber medir e alinhar seus passos, onde pisar, o "andar na linha" é sinônimo de atuar com precisão.
Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho me disse quando iniciei as armas do Ving Tsun no nível Luk Dim Bun Gwan: "Roberto, quando você pratica com armas a sua atitude mental deve ser outra (...) armas não são para crianças."
No nível Baat Jaam Do, tenho nas mãos duas facas, cada uma do tamanho do meu antebraço, com as quais devo fazer movimentos precisos, pois há uma clara leitura de que, diante de um oponente igualmente armado, o acerto ou o erro podem ser a diferença entre a vida ou a morte.
Nunca o ditado popular "é preciso saber onde pisa" fez tanto sentido para mim como agora. Os movimentos com as facas devem ser precedidos de um exercício interno de auto percepção dentro daquilo que um cenário de combate simbólico representa, e nunca antes a minha atitude mental esteve tão próxima do que chamamos de premência de morte.




Si Fu e Discípulos durante prática do Baat Jaam Do. 




Em uma outra oportunidade ouvi de meu Si Fu: "Com a prática do Baat Jaam Do, você decide, matar, morrer ou não fazer nada." São decisões acompanhadas de consequências extremas, sem margem para segunda chance. Este cenário exigirá síntese de minha decisão, não há muito tempo para divagar na resposta, ela deve ser imediata e precisa.
Como os passos em uma linha.





Si Fu e eu. Seminário Teórico do Nível Fundamental. 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Ubuntu do Kung Fu



Celebração dos 49 anos do Mestre Senior Julio Camacho.




A postagem de hoje não vai falar sobre o famoso sistema operacional construído a partir do núcleo Linux, pelo menos não diretamente, porque na realidade oferecer um sistema que qualquer pessoa possa usar, seja de que nacionalidade for, nível de conhecimento ou até limitação física, é algo que aponta diretamente para o primitivo o significado da palavra ubuntu.
 De origem sul africana não tem uma tradução literal e pode ser compreendida como "humanidade para com os outros", ou como ficou mais conhecida: "sou o que sou graças ao que somos".






Fraternidade zulu: sou graças ao que somos.








Há duas semanas passadas, mais exatamente em uma sexta feira, meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho nos disse: "eu prefiro que meus Discípulos fiquem famosos. Só quero ser reconhecido como o Si Fu de vocês".
A relação de humanidade que se extrai desta frase dita por meu Mestre me fez lembrar deste  ensinamento ancestral da tribo zulu sul africana. Ser através do outro é uma manifestação daquilo que é construído a partir da essência relacional, e do que ambos representam um para o outro.
Você não representa bem a quem não conhece, não expressa valores com honestidade se também não acredita neles, e não é reconhecido como parte do outro, quando se fecha em si mesmo. Por esta razão, o desenvolvimento do Kung Fu na Família Moy Jo Lei Ou é provido através da Vida Kung Fu, que é a construção de uma relação com seu Si Fu, e por extensão com seus irmãos Kung Fu. E neste último "grau de parentesco", há mais uma indicação do quanto a relação Si-To é base de todo este processo, porque afinal  só tenho irmãos Kung Fu, por ter sido, assim como eles, aceito por meu Si Fu.






Kung Fu: escrito gentilmente para esta postagem pelo meu Si Hing Thiago Pereira. 





Irmanados através da figura do Mestre, uma Família Kung Fu é a reunião de pessoas de origens, pensamentos, defeitos e qualidades diferentes, com um ponto em comum: todos tem o mesmo Si Fu.
Se pensarmos em termos de comparação, de como é difícil conviver em certos grupos sociais, alguns  deles com comportamentos que apontam para a competição, individualismo, para uma "humanidade desumana". E fazermos parte de um microcosmo, onde com a batuta de nosso Si Fu, podemos buscar ser a "orquestra que toca junto" é uma oportunidade que nos permite viver fora do círculo férreo da competição desenfreada onde a fraternidade humana é asfixiada.
 E sim, desafinamos de vez em quando, afinal de contas estamos em uma Casa de Guerra (Mo Gun) e a crise é um nossos materiais de estudo, porém a diferença reside no fato de que tudo é aproveitado para o aprendizado. Em Kung Fu a importância do acertar ou errar é medida pelo quanto se aprende com isso, e com este espírito a Família Moy Jo Lei Ou caminha.
Um Discípulo segue seu Si Fu e testemunha sua obra. A frase daquela sexta feira é para mim a súmula do comportamento discipular: não que eu tenha por ambição ser famoso, mas que meu Si Fu possa ser reconhecido através de alguma contribuição positiva vinda de mim.
E assim como no ubuntu, eu serei, graças ao que somos.




Si Fu e eu em seu escritório no Núcleo Barra da Tijuca.






segunda-feira, 13 de julho de 2020

Três Mestres e uma História.



Divulgação Oficial do Evento comemorativo dos 10 Anos da Família Moy Lin Mah.





A noite de hoje marcou o início da semana de Comemorações pelos 10 anos da Família Moy Lin Mah.
 Com a presença de Membros de todas as Famílias Kung Fu da Moy Yat Ving Tsun Marcial Inteligence com sede no Rio de Janeiro, Si Sok Úrsula Lima, entrevistou dois de seus Si Hing: Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho e Si Sok Ricardo Queiroz.
Um encontro conduzido pelos 3 Mestres Senoirs, com a presença de mais dois Mestres Qualificados: Si Sok Felipe Soares e meu Si Hing Thiago Pereira.
Foram duas horas com relatos de muitas histórias vividas juntos por mais de duas décadas como irmãos Kung Fu.
Si Sok Ricardo Queiroz trouxe entre outras memórias a época em que Si Sok Úrsula com seus 16 anos enquanto ela era tutorizada por ele durante uma prática de Pak Sau, lhe causou a impressão de  ser uma pessoa muito questionadora, o que ele fez questão de frisar, no bom sentido da palavra. Alguém com o vivo desejo de aprender, se aperfeiçoar. Lembrei na hora de uma frase que já ouvi de meu próprio Si Fu: "ganha quem faz a pergunta". Ela estava sim no caminho certo e o tempo se encarregou de provar isto.
  Meu Si Fu trouxe a memória de quando apresentou o Biu Ji para minha Si Sok. Ele disse que estavam na cozinha da casa dela (meu Si Fu e Si Sok Úrsula são primos) e a luz havia acabado no momento em que ele ia apresentar a primeira parte da sequência. Tentando aproveitar um pouco da luz que vinha da rua pela janela, ele apresentou. Em condições totalmente adversas, seria normal se ela pedisse para que fosse apresentada de novo em outro momento. Nada disso: Si Sok Úrsula, enfrentou a situação e fez o seu melhor.




A "jovem Úrsula Lima" ao lado de seu Si Fu e Si Mo. 




Estes dois relatos falam muito sobre ela: De alguém que quer saber mais e fazer o melhor com aquilo que se tem, sempre pronta para enfrentar o desafio, venha de onde ou quando vier.
Meu Si Fu disse que Si Sok Úrsula tem a característica do Biu Ji: resistência e capacidade de ficar no ponto, aqui no sentido de precisão.
Os 10 anos da Família Moy Lin Mah são frutos do trabalho daquela menina questionadora em sessão de Pak Sau, que não se intimidava em enfrentar desafios quando colocada em situações adversas e que brilha dentro do Grande Clã Moy Yat Sang como a primeira mulher a ser titulada Mestre por seu Si Fu no ano de 2010.
Pelo seu brilho, pela sua História, pelo seu exemplo, os meus parabéns!

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A Flor e o Cavalo.



Foto Oficial da Mestre Senior Úrsula Lima na página da Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence.




Quando iniciei a prática do Ving Tsun, entre os planos das sessões personalizadas, dois apareciam com destaque: o primeiro com o nome de meu Si Fu, à época Mestre Qualificado (atualmente Senior) Julio Camacho e da Tutora Úrsula Lima.
Pelo meu histórico dentro das artes marciais, tinha a crença de que aquela tutora deveria ser uma senhora de seus 40 anos, dada à elevada qualificação que à ela era atribuída.
A Moy Yat Ving Tsun apresentava seu trabalho, o ano era de 2003, com um Curso chamado Introdutório, no qual depois de 4 sessões, o praticante decidiria se deveria ou não seguir com a prática. Eu já estava decidido na minha terceira sessão: tive um tutor de uma qualidade técnica e uma capacidade de transmissão que até então nunca havia visto em artes marciais: o nome dele é Diego Guadelupe, hoje Mestre de Ving Tsun e meu Si Sok. Mas e a sessão de número 4?
Qual não foi minha surpresa ao subir as escadas do antigo Núcleo Jacarepaguá e me deparar com uma bela jovem de seus 20 anos para ser minha tutora naquele dia. Seu nome? Úrsula Lima.
Aquela pessoa que havia virado lenda na minha imaginação como uma grande tutora de seus 40 anos era na realidade, muito mais jovem e muito mais qualificada em transmissão do que minha fantasia marcial imaginava, e realmente não passava pela minha cabeça, que alguém tão jovem, tivesse tanto Kung Fu.





Si Sok Úrsula e eu durante sua visita ao Núcleo Barra da Tijuca. Foto 2019.




Hoje passados 17 anos deste evento, a Mestre Senior Úrsula Lima tem no meu conceito um lugar de destaque na Galeria dos Grandes Nomes do Ving Tsun. Recebeu seu nome Kung Fu de meu Si Taai Gung  (Patriarca Moy Yat) e seu sobrenome Lima foi a base para a manifestação de suas características dentro da construção de sua personalidade Kung Fu. Si Sok Úrsula Lima, com a beleza da flor de lótus e a força do cavalo era agora, Moy Lin Mah.
Certa vez ela relatou um dos acontecimentos que considero um dos mais bonitos dentro do nosso Grande Clã. Patriarca Moy Yat estava em visita ao Brasil e existia um protocolo para que ninguém o tocasse. Após fazer sua reverência, e respeitando a regra estabelecia, Si Sok Úrsula Lima vê o Líder do Grande Clã Moy Yat apontando o dedo indicador para uma de suas próprias bochechas, em um sinal que indicava o pedido de um beijo.





Si Sok Úrsula Lima entre os Líderes do Grande Clã: Patriarca Moy Yat e Madame Helen Moy. 





A Mestre Senior Úrsula Lima tem uma História muito importante, de grandes contribuições dentro da Família Kung Fu de meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho. Eles são inclusive "duas vezes da mesma família" uma vez que são primos de sangue e irmãos Kung Fu.
Durante muito tempo e por mais de 10 anos, ela foi Coordenadora Geral do Núcleo Barra da Tijuca, contribuindo de forma importante e definitiva para a consolidação da Família Moy Jo Lei Ou. O que só confirma à ela, minha gratidão.



Duas vezes Família: Meu Si Fu e Si Sok Úrsula: primos sanguíneos e irmãos Kung Fu.


Em julho de 2010, foi reconhecida Mestre Qualificado pela Moy Yat Ving Tsun Martial Inteligence, com os auspícios da International MYVT Federation, sendo a primeira mulher do Clã Moy Yat Sang a receber tal honraria.
O Sistema Ving Tsun foi fundado por uma mulher, Yim Ving Tsun, que teve como Mestre uma outra mulher, a monja Ng Mui. Pelo menos três séculos separam as histórias de Si Sok Úrsula  das lendárias responsáveis por esta que é a única Arte Marcial que tem sua fundação atribuída a uma mulher.
Em 2020 celebramos a coroação dos 10 Anos da Fundação da Família Moy Lin Mah que assim como todas as Famílias do Grande Clã Moy Yat Sang, é descendente da mesma árvore genealógica, com raízes fundadas no trabalho e dedicação do introdutor da Moy Yat Ving Tsun Martial Inteligence no Brasil, Grão Mestre Leo Imamura. E ele, assim como no exemplo histórico da Fundação deste sistema de Kung Fu, preparou uma mulher para se tornar Mestre de Ving Tsun.




Mestre Úrsula Lima recebe seu Jiu Paai das mãos dos Líderes do Clã Moy Yat Sang: Grão Mestre Leo Imamura e Senhora Vanise Imamura.





Esposa de Ricardo e mãe de Rebeca, representa muito bem o empoderamento feminino e sem precisar levantar qualquer tipo bandeira, atuando em todos os seus papéis e atendendo todas as demandas que as mulheres modernas são cobradas com todos os seus papéis bem definidos e resolvidos, dedicada à família e sendo uma Profissional de Kung Fu de grande sucesso, com carreira internacional, tendo seu trabalho sido apresentado também em Portugal.




Foto Família: O marido Ricardo e sua filha Rebeca.





É uma História muito rica e muito longa para que um Blog tenha a pretensão de tentar chegar perto de relatar o tamanho do brilho que ela tem. Mas a minha gratidão por Mestre Úrsula Lima, por tudo que ela representa e por tudo que ela fez, faz e fará por esta Arte que nos uniu como Família, me autorizam a registrar nesta postagem, que dedico à ela algo muito maior que uma homenagem.
DEDICO MEU APLAUSO!




Cerimônia da Família Moy Lin Mah.


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Sintonia.



Si Fu orienta a Equipe responsável pela Unidade Tijuca.






A foto acima retrata um almoço em que, entre outros irmãos Kung Fu, estávamos eu, Rodrigo Moreira e Marcos Leiras sentados próximos ao nosso Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho. Nossa posição à mesa tinha uma razão muito especial: recebíamos ali de nosso Si Fu, orientações para o desenvolvimento das atividades da Unidade Tijuca.
Quando um grupo representa o trabalho de seu Mestre em um determinado local, é de fundamental importância que aquele grupo esteja sintonizado com aquilo que seu Si Fu pensa  sobre como o trabalho deve ser desenvolvido. 
Particularmente, enxergo como uma aposta que meu Si Fu fez confiando em mim e meus irmãos Kung Fu, e como Discípulo, a mim cabe dar o meu melhor. Por se tratar de uma relação de Vida Kung Fu, a orientação para o desenvolvimento das atividades tem origem na mesma nascente que banha o enriquecimento do meu Kung Fu, representando uma oportunidade de desenvolvimento cada vez maior. 







Si Fu concedendo a mim seu autógrafo em seu livro: "O Tao do Surf".





Eu vejo este momento da relação como meu Si Fu como  uma oportunidade de fortalecer e estreitar ainda mais os laços com ele, afinal ao procurá-lo mais vezes para ser orientado sobre os rumos a serem tomados, tenho a oportunidade de ouvir mais e aprender mais. 
Estou certo de que eu e meus irmãos Kung Fu, responsáveis pela Unidade Tijuca vamos errar muito e acertar muito também, mas será o aprendizado adquirido em cada situação que fará a diferença em nosso Kung Fu. Como diz nosso Si Fu: "se você acertou e não aprendeu nada e quando errou aprendeu, valeu mais para você ter errado, porque no final o que importa é aquilo que você aprendeu". 
Representar o trabalho do nosso Si Fu além de uma grande honra, é também uma oportunidade para através desta experiência, termos juntos a ele, nosso desenvolvimento através da Vida Kung Fu.








Prática ao ar livre dos Membros da Unidade Tijuca.









segunda-feira, 29 de junho de 2020

Kung Fu e o tempo.




Si Fu caminhando ao lado de Si Taai Gung Moy Yat.






"E como o tempo não tem, nem pode ter consistência alguma, e todas as coisas desde o seu princípio nasceram juntas com o tempo, por isso nem ele, nem elas podem parar um momento, mas com perpétuo moto, e resolução insuperável passar, e ir passando sempre".


Pe. Antônio Vieira.



                                                                                                         
 Em seu livro intitulado "Sobre o tempo", o Sociólogo judeu-alemão Norbert Elias, introduz o assunto falando sobre um ancião que respondia saber o que era o tempo quando não perguntavam o que ele era, e quando perguntavam, ele não sabia.
Os relógios são apenas recursos mecânicos capazes de mensurar divisões que nomeamos de segundos, minutos e horas, um procedimento artificial para tentar dar uma padronização a algo que não tem cheiro, não tem gosto, não se toca, nem se vê através de cores. Algo que apenas acontece. Assim como o vento toca nosso rosto mas não podemos segurá-lo, assim é o tempo, se manifestando em nós, deixando em cada um a sua marca.
O que o meu Kung Fu me diz sobre o tempo? Qual a relação que estabeleço entre ele e o meu desenvolvimento?
Em um dos Eventos de nossa Família Kung Fu, meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, foi questionado com a seguinte pergunta: "Mas o que a gente faz em momentos tão ruins como este?" Ele respondeu: "Nunca está ruim. Quando não está bom, é porque, de alguma forma, seu Kung Fu está falhando."
A resposta de meu Mestre é uma chave de leitura para percebermos a medida do quanto estamos comprometidos com nossa própria vida, em todos os momentos. Qual a nossa capacidade de percepção dos fatos, o movimento responsável que fazemos, a leitura sobre a dinâmica dos acontecimentos, de que a todo momento o cenário muda, as coisas surgem com suas velocidades próprias, e o quanto estamos atentos para tirarmos proveito dos fatos, estabelecendo ações de qualidade, e não sermos vítimas deles.
Um Kung Fu maduro não culpa o que acontece, não se assusta com bater forte da onda, pelo contrário, pega sua prancha e vai surfá-la. É sensível aos acontecimentos, não entra em conflito com  eles, e como um navegador experiente, não enfrenta os ventos, apenas ajusta as velas.





Si Fu e Si Gung Leo Imamura durante Seminário no núcleo Barra da Tijuca.




O tempo no Kung Fu, não é o tempo do relógio, e embora seja fato que se demandem anos para alcançar um desenvolvimento elevado, mais importante que o tempo que se passa praticando é a qualidade do esforço empregado neste mesmo tempo, que fará a diferença.
Aqui faço questão de repetir: "qualidade do esforço", porque será essa qualidade, essa busca da excelência, que fará toda a diferença no tempo empregado, e porque acima de tudo, um bom praticante de Kung Fu se esforça para não fazer força, ele atua com um esforço inteligente.
 Não se trata de ser melhor ou pior do que alguém, ou de se conseguir um resultado mais rápido ou mais lento, o diferencial aqui está no compromisso de se empregar o tempo da melhor forma possível, dentro daquilo que cada um é capaz, afinal, o Kung Fu não é objeto de comparação, é uma construção individual.
Assim como no livro que citei no início da postagem, não tenho a resposta e nem sequer a ambição de um dia conseguir responder sobre o que é o tempo, porque na realidade o que tenho recebido do meu Kung Fu, é apenas uma lente que vai ficando dia a dia mais potente para que eu possa enxergar, cada vez melhor, não o que é o tempo, mas aquilo que devo fazer com ele.





Si Fu e eu, durante a Celebração de seus 50 anos.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Cui bono?


Si Fu desenvolvendo projeto. Foto 2019.




Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, durante a prática de hoje nos trouxe a reflexão sobre um brocado latino, "cui bono?" que significa "a quem beneficia?"
A partir deste seu ensinamento, ele dividiu conosco que a nossa Arte, o Ving Tsun, não é uma estrada na busca de um proveito efêmero das coisas. É um caminho construído com o compromisso para a realização de um benefício que seja duradouro, e por esta razão, é importante saber esperar o momento adequado para agir.
A atitude responsável, que inclui o zelo pelo outro, é fundamental para que alcancemos uma compreensão apurada de nossa arte. Não raro, é necessário abdicarmos de nossos desejos imediatos, ainda que legítimos e totalmente lícitos, em nome de um bem maior, que alcance à todos. E é aí que a figura do líder se mostra fundamental para a correção de rumo.
Um dos maiores ganhos que o Kung Fu oferece, é a arte de escutar. Ela não se resume apenas em uma capacidade auditiva, o quanto de decibéis você alcança. Não é isso. A escuta no Kung Fu vem através da abertura para aceitar novas propostas, sem resistir, apenas escutando e aproveitando o que é oferecido. Assim você absorve e não raro aperfeiçoa a ideia com base naquilo ouviu.
Quando você desenvolve esta competência, adquire a sensibilidade para perceber de que forma suas ações podem gerar maior benefício.




Si Fu fazendo uma demonstração com o Tutor Guilherme de Farias, observado pelo Tutor André Guerra.





Em um cenário de luta corporal por exemplo, é fundamental perceber o outro e agir em função daquilo que ele te oferece, sem desejos anteriores, sem "plano de voo". Apenas observe, aceite o que vem, o que o cenário apresenta, perceba-se como elemento do todo, assim você terá muito mais material avaliativo para dar uma resposta adequada.
Quando meu Si Fu falou hoje para nós sobre o brocado latino, título desta postagem, lançando luz sobre  nossas ações, para que elas sejam sempre alicerçadas em um pensamento projetado com propostas cirurgicamente analisadas, capazes de avaliar possíveis cenários e aquilo que se pode retirar de cada um deles, além de reafirmar sua responsabilidade como nosso líder, ele mais uma vez educou o nosso Kung Fu, para que um dia possamos exercer futuras lideranças.






Si Fu e Si Mo em visita ao Núcleo Ipanema.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

O Caminho do meu Kung Fu.



Foto presenteada por Si Fu: Sessão de hoje do Nível Superior Final.




Quando meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, me admitiu no Nível Superior Final, suas palavras me tocaram o coração de uma forma muito especial.
Disse meu Si Fu: "Roberto estou fazendo junto com você uma aposta. Estou apostando em nós. Se os dois quisermos, não podemos perder."
Os níveis de um sistema de Kung Fu são como os cômodos de uma casa; você não passa por eles, você reside em todos eles, e com o tempo vai se tornando tão íntimo que o seu próprio espírito estará diluído no local que habita, ou como se diz por aí, ele terá a sua cara.
A aposta de meu Si Fu é também a minha, de estudar com mais profundidade cada Nível, mais que revisitando-os, habitando em cada um deles, com minha leitura, com minha identidade, com meu Kung Fu.




Relatando aos presentes um pouco da minha experiência de Vida Kung Fu ao lado de meu Si Fu.




No Baat Jaam Do fazemos uso das facas, e armas não são para crianças. Um Kung Fu adulto reconhece seus limites, e não se envergonha deles, mas estabelece um compromisso pessoal para transpor a cada um. Penso ser este um bom caminho para se alcançar a Mestria.
E o que há de principal, de mais profundo em tudo isso, é a relação que estabeleço com meu Si Fu. Mesmo com todas as minhas fraquezas, todos os meus medos, todos os meus vícios, ele sempre me deixou as portas abertas, e lançou uma compreensão sobre mim, que muitas vezes nem eu mesmo tinha. Ter o coração aberto para perceber que a relação Kung Fu vai para muito além de uma boa posição do punho, é algo que só o tempo e a proximidade permitem, é algo que experimentamos na Vida Kung Fu.
Meu Si Fu diz, que para acontecer o desenvolvimento do Kung Fu, é importante esperar e respeitar o tempo de cada pessoa, e agora depois de alguns anos, vejo que o meu tempo chegou, através do firme propósito de fazer o meu melhor.
E com tudo isso, sobre o que eu era, o que sou, e ainda serei, tenho a plena consciência de que não conseguiria chegar a todas estas conclusões sozinho.
 Meu Si Fu sempre apostou em mim, e suas palavras no dia da minha passagem de Nível, apontam na direção da construção do meu Kung Fu.




Foto Oficial:  Si Fu e Si Mo (Sra. Márcia Moura Camacho) por ocasião de minha passagem de Nível para o Baat Jaam Do.