domingo, 11 de agosto de 2019

O Pai do meu Kung Fu.


Entrego o chá ao Si Fu durante meu Baai Si. Símbolo de que meu Si Fu me aceita como Discípulo. Ao fundo na foto meu Si Hing e orientador na Cerimônia,  Líder da Família Moy Fat Lei, Thiago Pereira.





Um Si Fu (Mestre Pai) é aquela pessoa que conhece Kung Fu bem mais do que você, e em consequência disso, é alguém que nem sempre dirá aquilo que você quer ouvir, mas sempre dirá aquilo que você precisa.
Não é uma tarefa nada fácil falar de seu próprio Si Fu, sempre ficará faltando muito a dizer, afinal, se trata do Mestre de diversas outras pessoas também, e cada um percebe algo sobre ele com base na relação Si-To, algo individual. E como é uma relação para a vida toda, sempre se construindo, estou certo de que a cada dia, novas páginas se acrescentam no livro da relação. Hoje escrevo sobre um pouco do muito que meu Si Fu fez e faz por mim.
Posso dizer que quando comecei na Família Kung Fu, minhas ilusões em "lutar bem" se resumiam ao combate corporal, como se eu entrasse pela tela de Cinema para ser o cara que salvava a mocinha e batia no vilão, bem clichê de filme americano. Si Fu me mostrou com o Ving Tsun como combater diversas outras lutas.






Si Fu e eu durante o intervalo em um Seminário no Núcleo Barra da Tijuca.






Meu Si Fu me fez ver que fantasia quando se fala em luta, é suicídio. Que não se faz firula, coreografia, ou se tenta adivinhar o que o outro vai fazer. É exatamente na percepção sobre o outro, respeitando o movimento que a outra pessoa faz, estando aberto para a relação, que alcançaremos um resultado de qualidade. E aí veio para mim uma das minhas primeiras conclusões sobre o Ving Tsun: eu posso aproveitar este ensinamento para qualquer coisa na vida.
Aprendi também, algo que seria impensável para mim, sem antes ter recebido seus ensinamentos: eu não gosto de luta. Durante muitos anos fiquei repetindo como um mantra que adorava luta, e quando meu Si Fu me mostrou através do Ving Tsun alguns dos os reais desdobramentos possíveis em uma luta, percebi como eu estava sendo infantil. Hoje, consigo compreender a luta de uma forma real, sem fantasia, e guardo como um momento histórico meu dentro do Ving Tsun o dia que meu Si Fu me disse: "Roberto, você não gosta de luta".







Si Fu orienta os presentes em um Seminário realizado no Núcleo Méier.





Uma outra característica marcante em meu Si Fu, está traduzida em uma conhecida frase sua: "é preciso ter um bom coração e uma péssima memória". Meu Si Fu tem uma grande capacidade em zerar ofensas recebidas em prol de algo maior, que é desenvolver o Kung Fu das pessoas. Nem sempre ele recebe a gratidão que merece, nem sempre é compreendido, mas sempre tem as portas abertas aos que lhe procuram. Aprender a zerar e começar de novo, não é fácil, o próprio Si Fu já disse várias vezes, "isso é treinado" e o caminho que trilho no Kung Fu, espero, me conduza também nesta direção, afinal, é sem dúvida, um elevado estágio de desenvolvimento humano.






Si Fu concede um autógrafo com dedicatória a mim, no livro de sua autoria intitulado: "Tao do Surf, zen e a arte de pegar onda".




Meu Si Fu possui uma leitura sobre o Kung Fu admirável. Não posso deixar de salientar que admiro muito sua capacidade de interpretar os movimentos marciais, sua técnica e sua excelência em transmissão. Por diversas vezes, só foi preciso Si Fu dizer uma única frase, para que minha compreensão sobre algo ficasse aclarada, permitindo que eu analisasse sobre, e ampliasse meus horizontes, ao repensar sobre o tema.
Em todas as minhas postagens eu tenho apresentado momentos da minha relação de aprendizado com Si Fu e esta não é diferente. Digo hoje o que sempre disse em todos os meus escritos, porém desta vez, o farei textualmente:
OBRIGADO SI FU! SIGAMOS JUNTOS!






Autógrafo e dedicatória concedidos a mim por Si Fu. 





domingo, 4 de agosto de 2019

Atuar no invisível.



Eu durante prática sábado passado. Núcleo Barra da Tijuca.




Um bom Kung Fu consegue observar no detalhe. Onde poucos conseguem ver, naquilo que não é explícito, a lente do Kung Fu consegue perceber. É um olhar cuidadoso, desenvolvido, aguçado.
Certa vez, no intervalo de um treino, meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, deu um exemplo sobre este, atuar no invisível.

O Brasil sempre foi um celeiro de craques de Futebol, e o personagem em questão do nosso exemplo é o craque Romário. Si Fu certa vez nos disse:
"Todos falam que o Romário não vai ao treino. Ele mesmo já brinca com isto, fizeram até música falando disso. Falam que ele só quer ficar jogando futevôlei na praia. Vocês já pararam para perceber o quanto de esforço é jogar na areia e como também nível de domínio de bola para poder praticar este jogo. Ele consegue um bom resultado treino, se divertindo".



Praticando com meu irmão Kung Fu, Cleiton Meireles.



Um bom Kung Fu não age no barulho. Inclusive existe a frase "uma mão mente, e a outra diz a verdade" que ilustra bem que nem sempre fica claro para o outro a intenção do artista marcial, é preciso um olhar atento, além é claro de dedicação à prática para que a sensibilidade se desenvolva. O chute do Ving Tsun, é conhecido como "chute invisível", o corpo não se move muito para a sua execução, como ocorre em chutes clássicos de vários outros estilos de arte marcial.

Atuar no invisível não é esconder o que faz. Si Fu nos diz que quando um chinês quer se esconder ele vai para o meio da praça lotada. A diferença está na capacidade de percepção. No Ving Tsun por exemplo, praticamos todos juntos, mas o alcance, a percepção daquilo que se pratica, é individual. Nada se esconde porém será a capacidade de leitura de cada um que trará a luz sobre aquilo que se apresenta para todos. Sem essa percepção, mantém se invisível até que se desenvolva o Kung Fu o suficiente para que se perceba.



Conversa entre Cleiton Meireles e Guilherme de Farias.